Resenhas

Black Dresses – Forever In Your Heart

Dupla mistura influências Screamo com glitches da música eletrônica em experiência caótica e catártica que reflete os tempos atuais

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Ano: 2021
Selo: Independente
# Faixas: 15
Estilos: Industrial, Screamo, Heavy Metal
Duração: 48'
Produção: Black Dresses

Ao longo dos anos, a música tem servido cada vez a um propósito de expurgo emocional. Aquelilo que é remoído, ressignificado e internalizado acaba encontrando, por meio de acordes, timbres e melodias um receptáculo para que tudo isso seja processado e colocado para fora. Talvez seja uma das particularidades mais conhecidas do processo de composição e, por isso, as formas como estes sentimentos são expressos variam de artista para artista, mas também de acordo com o tempo.

Tempos conturbados influenciam sonoridades, nem sempre se manifestando necessariamente em estéticas violentas, encontrando terrenos em gêneros musicais como a Ambient Music, o Pop e Folk. Entretanto, há quem prefira transmitir a loucura e complexidade dos tempos contemporâneos sem enrolações. A magnitude do que afeta o artista, é exatamente aquilo que ele mostra. Sem metáforas, sem rodeios. Esta é a linguagem do duo Black Dresses, uma linguagem feita de caos.

Formado por Devi McCallion e Ada Rook, o projeto se encaixa dentro daquela leva de artistas da era digital que ignora cronogramas de marketing para o lançamento de seus discos. Assim, colecionam a impressionante marca de 4 discos lançados desde 2018 (ano em que começaram a lançar músicas como Black Dresses). Fora isso, cada uma das integrantes possui projetos solos, ampliando ainda mais falas e espaços que podem ocupar com seu gritante e destrutivo som.

Esta imensa quantidade de registros deixa ainda mais claro que dentro de cada uma delas há muito a ser comunicado pela música. Angústias, aflições, alegrias e tristezas estão espalhadas por suas composições e, se o tema das letras não nos impacta, certamente a sonoridade o fará. Há uma mistura de música eletrônica e Metal repleta de vocais guturais. Algo que transita entre 100gecs e Dorian Electra, mas que parece evocar referências do Electro-screamo dos anos 2000, de bandas como Brokencyde e Breathe Carolina. Além disso, tudo passa por um filtro de distorção que deixa a atmosfera saturada – quase como as estéticas Hip Hop dos hits do TikTok.

Forever In Your Hearts, quinto disco da dupla, procura mostrar essa caótica e pontual mistura como reflexo do último ano. O registro foi lançado meses depois da banda ter anunciado seu fim, mas parece que havia tanto ainda a ser dito, que foi necessário romper esse curto hiato para que as integrantes pudessem gritar suas urgências. Não é um trabalho que acolhe em um sentido “vem aqui, vamos nos confortar juntos, longe deste mundo maluco”. Devi e Ada querem devolver ao mundo a mesma raiva que foi jogada em cima delas. E a raiva acumulada é tão grande, que a estrutura física e digital do arquivo musical não parece aguentar. Há momentos em que é difícil distinguir o que é uma distorção intencional, e o que é um glitch do processo de mixagem ou master.

Com 17 pontos de exclamação, “PEACESIGN!!!!!!!!!!!!!!!!!” é o ponto de partida para este delírio arrebatador, entrecortando as harmonias da música com timbres clipados e distorcidos, promovendo pouco conforto para o ouvinte. “Heaven” é mais lenta, mas entre os espaços que as batidas permitem, são impressas distorções intensas que nos desestabilizam por completo. “Silver Bells” opta por uma abordagem mais Hard Rock em seu ritmo, quase como um hino brega de Rock oitentista, porém revisitado por um filtro de desespero e vocais agonizantes. “We’ll Figure It Out” retoma uma estética Pop Rock típica de The Veronicas, algo como uma canção de vingança. Por fim, “(Can’t) Keep It Together” alterna timbres MIDI com modulações de timbres no que parece ser o mais próximo de uma balada romântica que iremos chegar neste universo doido.

O disco acaba promovendo muitas comparações com a música Screamo, não apenas por causa dos gritos e distorções, mas pelo aspecto confessional desta variante do Rock Emo. É quase como uma evolução natural do estilo, repleta de fusões com a música eletrônica e até mesmo um aspecto experimental bastante ousado. O que era para ser confuso torna-se muito claro. Os gritos aqui são extremamente sinceros e profundos, arrebatando o ouvinte no peito e fazendo com que ele compreenda as confusões internas das integrantes. Pode não ser um trabalho fácil de escutar, mas certamente é um disco impactante de se experimentar.

(Forever In Your Heart em uma faixa: “PEACESIGN!!!!!!!!!!!!!!!!!”)

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ARTISTA: Black Dresses

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.