Resenhas

black midi – Schlagenheim

Barulhento no sentido literal e figurado, o álbum de estreia do quarteto britânico justifica o burburinho que precedeu seu lançamento

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Ano: 2019
Selo: Rough Trade
# Faixas: 9
Estilos: Math Rock, Noise Rock, Krautrock, Rock
Duração: 43’
Nota: 4.5
Produção: Dan Carey

“Schlagenheim” é uma palavra que não existe. Ao consultar uma amiga fluente em alemão, descobri seu suposto significado: o título do álbum de estreia do black midi pode ser traduzido como “bateção”. A resposta chegou até mim com a ressalva de não ser precisa, exata. Agradeci pela meia-tradução e concluí que o nome do LP, de qualquer modo, faz sentido, sim – tanto pela coerência com o som apresentado como também por ser uma palavra que, a priori, escapa à lógica.

O primeiro registro em estúdio da banda, no entanto, não surge no vácuo de sua curta (porém, já muito comentada) trajetória. Após fazer a cabeça dos londrinos com as apresentações frequentes no The Windmill – casa de shows no bairro de Brixton – o burburinho ao redor do jovem grupo de músicos recém formados pela BRIT School (eles oscilam na faixa etária dos 19 e 20 anos) explodiu furiosamente pelo resto do mundo via internet. Isso tudo graças às sessions gravadas por canais especializados e registros capturados pelo cinegrafista Lou Smith, que reúne diversas apresentações do black midi em seu canal no YouTube. 

Foi também no Windmill, com a ajuda do programador da casa Tim Perry, que o grupo serviu como banda de suporte a uma das improvisações esporádicas de Damo Suzuki, vocalista do CAN, banda fundamental do Krautrock. A jam resultou em um registro lançado em fita e alavancou de vez o interesse pelos mais novos queridinhos promissores do Rock inglês.

Grande parte das faixas que compõem o disco não são desconhecidas dos previamente familiarizados com o black midi. Segundo o vocalista principal e guitarrista do grupo, Georgie Greep, em entrevista à revista inglesa Loud and Quiet, ao chegarem no momento de gravar o álbum, a decisão foi de registrar as músicas que vinham sendo tocadas nos shows realizados até então. Só que agora, devido ao processo em estúdio, tendo a possibilidade de adicionar elementos que não integrariam suas apresentações ao vivo como banjos, sintetizadores, acordeão e piano.

Essa pré-exposição de grande parte do que viria a ser apresentado em estúdio, embora temida pelos ratos-de-internet como uma certa “maldição do hype”, é um dos pontos de destaque mais interessantes da carreira, ainda que nichada, meteórica do black midi. Vale lembrar que o grupo integrou o line up do Glastonbury, pouco menos de um mês após o lançamento de Schlagenheim (2019). De certa forma, tivemos a oportunidade de acompanhar o processo criativo de composição e aperfeiçoamento da sonoridade da banda. As faixas, desenvolvidas a partir de improvisos capitaneados em sua maioria pelo baterista Morgan Simpson, parecem estar em constante mutação, caminhando para o que o grupo julga musicalmente pertinente, conforme a nova apresentação acontece. 

O quarteto tem uma técnica peculiar. Em estúdio, eles passam por sessões de improviso de aproximadamente das duas horas. Segundo Greep, é depois dos primeiros sessenta minutos que as músicas começam a tomar forma. “Vamos nos aquecendo, e uma hora as coisas acontecem. Precisamos chegar em um ponto em que simplesmente paramos de pensar sobre o que estamos fazendo”, – o que é perfeitamente perceptível durante a audição da gravação em estúdio. Embora encurtadas por razões da estrutura convencional de um disco, transições entre músicas, como “Of Schlagenheim” e “bmbmbm”, dão a impressão de que as duas canções poderiam fazer parte de uma grande faixa de dez minutos, devido a progressão fluida. 

As mudanças contínuas não se resguardam apenas ao processo de criação orgânico preferido pela banda. Da abertura do disco com “953”, Rock de guitarra cabeçudo marcado por fortes características do Math Rock, até faixas como “Reggae” – que conta com a inserção do refrão de “Talking Heads” (single previamente lançado que não incorpora a lista de tracks de Schlagenheim) –, a troca de compassos das composições salta aos ouvidos, sem nunca dar a dica de que estão prestes a acontecer. 

A alternância de andamento constante confere às músicas, no mínimo, uma atenção curiosa. É um amontoado de referências que partem de emblemas do Krautrock como o NEU!, esbarram nos processos do Fusion Jazz e encontram a barulheira do Death Grips e o Rap de Danny Brown. Contudo, essa mistura que poderia tornar-se uma confusão arbitrária, é agrupada pelo black midi com naturalidade através de camadas que não necessariamente se sobrepõem, mas certamente se complementam. 

Seria leviano dizer que a banda faz um som inovador, e afirmar o contrário não é nenhum descrédito. Em um momento histórico do gênero em que grande parte das produções se encontram no limbo de uma constante repetição de receitas previamente postas à prova, o trunfo do black midi, referido pela mídia especializada como um destaque improvável do Rock atual, é encontrar em sua possibilidade de formação musical uma maneira de pinçar o que há de interessante do que já foi feito e mesclá-los sem receio de encavalar sonoridades e estéticas. 

Há também uma certa despretensão admirável no quarteto. Eles permanecem verdadeiros ao ímpeto primário de aproveitar referências como base de criação para algo não inovador, mas interessante – tanto aos intérpretes quanto aos ouvintes. Das primeiras gravações disponíveis online ao resultado eternizado pelo álbum lançado no dia 21 de junho deste ano pela Rough Trade Records – selo que, em sua trajetória, conta com nomes como The Smiths e Libertines em seu catálogo –, o som do black midi carrega um traço mutante que talvez seja o principal motivo do destaque que a banda vem recebendo em tão curta caminhada.

(Schlagenheim em uma faixa: “bmbmbm”)

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