Resenhas

Blood Orange – Angel’s Pulse

Dev Hynes entrega epílogo para “Negro Swan” (2018) com uma reunião de ideias inteligentes e convidados ilustres

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Ano: 2019
Selo: Domino
# Faixas: 14
Estilos: R&B, Indie
Duração: 32’
Nota: 4
Produção: Dev Hynes

É difícil pensar em Dev Hynes envolvido em algum projeto de proporções modestas. Um dos produtores mais badalados da década, o britânico tem se estabelecido como sinônimo de um som sofisticado que fica no limiar entre o Indie e o R&B. Além de sua linguagem singular, de alguma forma, ela ainda capturou o espírito do tempo porque tornou-se referência global, tendência inescapável. Seus discos, evidentemente, fazem jus ao seu status e a sua nova investida em estúdio não poderia ser diferente. O artista por trás do Blood Orange decidiu chamar Angel’s Pulse de “mixtape” ao invés de “álbum”, o que até poderia trazer ares de despretensão a obra. No entanto, basta olhar a lista de colaboradores para deixar isso cair por terra. Ela conta com nomes como Arca, Tinashe, Porches, Toro y Moi, entre outros.

Mesmo assim, algumas características, de fato, tiram Angel’s Pulse da categoria “álbum”. Seu caráter mais livre para entregar canções experimentais é o fator mais importante para cravar essa designação. Em alguns momentos, as faixas parecem até inacabadas, como um ensaio do que poderia ser uma versão mais redonda. Mas, é aqui que encontramos a maneira mais interessante de apreciar a “despretensão velada” de Dev Hynes. A narrativa é ótima: em texto enviado à imprensa, ele conta que gosta de entregar CDs com seleções de músicas para amigos, ou até para desconhecidos na rua, depois de terminar algum trabalho em estúdio. Assim, AP funciona como um deste “epílogos” para Negro Swan (2018).

Com suas faixas curtinhas, a mixtape mostra Blood Orange em namoro com o Pop sintetizado dos anos 1980 que, com um pouco mais de malícia, poderia gerar grandes hits (“Benzo” e “Good for You” são os melhores concorrentes para isso). Contudo, o objetivo do artista, nesse momento, é exercitar suas habilidades – Hyves tocou todos os instrumentos de AP que ele também produziu e mixou. O resultado é uma espécie de lado B do The Weeknd (como em “Dark and Hadsome”, com Toro y Moi) ou uma versão light do Hip Hop de Tyler, The Creator (bem representado por “Berlin” e “Gold Teeth”).

Sobre as colaborações, destaque para Tinashe e Justine Skye, cada uma presente em duas músicas diferentes. São elas que assumem o papel das grandes vozes que impressionam em discos de R&B contemporâneo. No mais, o fã de Blood Orange pode comemorar a chegada da mixtape que, por mais que tenha uma levada diferente e uma proposta menos fechada, ainda carrega consigo o selo de qualidade Dev Hynes que conquistou a todos anos atrás. Apesar de ser “só uma mixtape”, Angel’s Pulse é melhor – e mais conceitual – do que muitos álbuns por aí.

(Angel’s Pulse em uma música: Benzo)

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ARTISTA: Blood Orange
MARCADORES: Indie, R&B

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.