O fato de Devonté Hynes ter escolhido uma cor específica para dar nome ao seu projeto principal está longe de ser uma escolha leviana ou aleatória. Blood Orange, em tradução livre, seria algo como uma laranja sanguínea – uma cor relativa ao interior da fruta e cuja matiz forte lembra o sangue humano. São muitos símbolos em relação, e a junção deles em um mesmo nome aproxima de forma íntima as conexões entre abstrações (cores e cheiros) e suas posições (exterior/interior). Nesse jogo de sensações internas e externas, Dev Hynes vem construindo um cosmo sonoro muito particular – um daqueles que desafia a categorização fácil e nos faz pensar para além da precisão (ou limitação) dos rótulos.
Seja produzindo artistas como Solange, Sky Ferreira, Mac Miller e A$AP Rocky, ou concentrando seus esforços em seus próprios trabalhos, o produtor e compositor londrino carrega uma singularidade estética que justapõe elementos do passado a vislumbres de futuro. Em seu álbum de estreia, Coastal Grooves, uniu sintetizadores dançantes dos anos 1970 e 1980 a reverbs ecoantes e a um sentimentalismo que conferia uma aura noir distópica – quase um Blade Runner indie. Já em Freetown Sound, seu terceiro álbum, a paleta sonora parecia semelhante, mas o mergulho no passado, sobretudo em suas vivências e episódios da juventude, trouxe uma paisagem de texturas ainda mais profunda. Agora, em seu quinto registro de estúdio, Blood Orange mostra o quanto esse universo impreciso permanece fértil. Longe de repetir fórmulas, Hynes aborda um novo tema sob as mesmas ambientações que desafiam interior e exterior: o luto.
Essex Honey brinca com a sinestesia entre uma localidade física (Essex) e um alimento/sabor (“honey”; mel). Sonoramente, aproxima-se de seus primeiros álbuns, marcados pelo descanso e pela tranquilidade, ainda que o tema, a princípio, pareça distante desse clima. Blood Orange não escreve sobre uma perda específica, mas sobre a sensação de luto que o acompanha desde a infância e adolescência – e que, de certa forma, persiste em nossos pensamentos nostálgicos, que sempre evitam o luto completo do passado. Para isso, Hynes retorna a sons que marcaram sua trajetória inicial, sem se limitar a eles. Os sintetizadores, drum machines e guitarras continuam presentes, mas agora dialogam com frases de saxofone, arranjos minimalistas e temas recorrentes – como se estivessem sempre em repetição dentro da mente. A incorporação de beats mais enérgicos da música eletrônica é outro caminho usado para renovar sua paleta sonora.
A abertura progressiva de “Look At You” funciona como respiro inicial e constante, revelando aos poucos a tessitura nostálgica que Hynes domina com naturalidade. “Somewhere In Between” traz um pop espaçoso dos anos 2010, palco para as contradições de revisitar o passado (“I just want to see again / Hard to look at you”). “Mind Loaded” se destaca como uma das construções mais belas do álbum, fruto da colaboração entre Caroline Polachek, Lorde e Mustafa, em que as particularidades vocais de cada um se entrelaçam para formar uma emoção coletiva. “Vivid Light”, por sua vez, carrega algo do trip hop filtrado pelo olhar confessional de Blood Orange, equilibrando temperaturas criadas pelo piano e pelas flautas. “The Last Of England” retoma as paisagens sonoras que sempre encantaram Hynes, feitas a partir de sons urbanos, diálogos e a fusão com instrumentos melódicos. Por fim, “I Can Go” encerra a viagem pela memória e pelo luto tocando os limites da ambient music, representando sentimentos desprovidos de forma definida.
Em Essex Honey, Blood Orange reafirma seu trabalho como território fértil de ambiguidades, no qual cada camada sonora reflete tanto lembranças pessoais quanto marcas de uma época. Ao tratar o luto não como episódio isolado, mas como experiência difusa e persistente, Dev Hynes amplia o alcance do pop, transformando-o em veículo de memória e elaboração afetiva. O resultado é um álbum íntimo e universal ao mesmo tempo: um convite a habitar esse espaço entre dor e beleza, ausência e criação – onde o passado nunca desaparece, apenas se reinventa em novas formas de sensibilidade.
(Essex Honey em uma faixa: “Mind Loaded”)
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