Resenhas

Blu & Exile – Miles

MC e produtor se reúnem novamente após oito anos e o resultado é um dos grandes discos de Rap de 2020

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Ano: 2020
Selo: Dirty Science, Fat Beats
# Faixas: 20
Estilos: Rap, Boom Bap, Jazz Rap
Duração: 95'
Produção: Exile

Miles, terceiro disco lançado a partir da parceria entre o rapper Blu e o produtor Exile, pede bastante dos ouvintes. São 20 faixas espalhadas em mais de 1 hora e 30 minutos, as quais, em linhas gerais, apresentam propostas similares: Boom Bap até o talo, samples picotados de Soul e Jazz e três versos – às vezes até quatro – entoados pelo MC. Não há nem a mais vaga menção ao Trap, nem ad-libs, nem auto-tune, nem feats estelares, nem hits convencionais para as pistas. Além disso, há canções que ultrapassam os nove (!) minutos de duração, sem malabarismos ou experimentações. Apenas Blu rimando sem parar. Mas, então, o que faz Miles, tão distante da linguagem e das tendências do atual Hip Hop, um dos grandes lançamentos do ano? E, sem dúvida, um forte competidor na luta pelo pódio dos melhores discos de Rap de 2020?

A dupla californiana não se juntava desde 2012, quando Give Me Flowers While I Can Still Smell Them foi lançado. Um trabalho de inegáveis ótimos momentos, mas o álbum que fez a dobradinha ser tão celebrada veio cinco anos antes: Below The Heavens (2007) se tornou uma espécie de clássico do Rap underground e é comum vê-lo figurando em listas de melhores discos do gênero dos anos 2000. Longe do habilidoso parceiro, Blu ainda tentou uma empreitada pelo mainstream, ao assinar contrato com a Warner no início da década passada. A aventura, um tanto traumática, foi interrompida com a saída da gravadora logo após o primeiro álbum, York (2011). Ele seguiu lançando discos (destaque para A Long Red Hot Los Angeles Summer Night, de 2019) que incrementaram ainda mais o status de “o rapper mais subestimado” – ao menos em fóruns de Hip Hop e comentários em vídeos do YouTube (Os admiradores mais fervorosos, inclusive, dizem por aí que J Cole roubou o flow de Blu). Miles chega, portanto, trazendo toda essa bagagem: a experiência ingrata pelo mundo das grandes gravadoras, a missão de lançar um projeto que faça barulho, o retorno da parceria com Exile (o que, na cabeça dos fãs, pressupõe um repertório tão poderoso quanto aquele de Below The Heavens). Blu, mais maduro e inspirado do que nunca, transforma tudo isso em rima da boa.

Embora o rapper tivesse apenas 24 anos quando Below The Heavens foi lançado, o novo disco carrega energia semelhante à do disco de 2007. Ao falar de temas como paternidade, espiritualidade, arte e a experiência de ser um negro nos Estados Unidos, Blu soa entusiasmado, autoconsciente, carismático e, sobretudo, otimista. São rimas que imergem na angústia, mas que trazem à tona esperança. “The American Dream”, com refrão chiclete de Miguel, traz um otimismo infundado, quase juvenil, como um sonho ilusório – certamente o tipo de injeção da qual precisamos em 2020. A nostálgica “Miles Away”, com citações a lugares e viagens e a pessoas que vão e vêm, parece resumir muito do que Miles e Blu querem dizer: apesar de tudo, é preciso seguir em frente. O aspecto autoral-confessional da poesia do rapper também é impulsionado pela utilização polissêmica da palavra “blue” em diversos momentos e títulos de faixas.

E as produções – simplesmente brilhantes – de Exile se encaixam perfeitamente com o que Blu tem a dizer. Tudo aquilo que tornou Below The Heavens tão especial é elevado a um nível ainda mais minucioso e rico, com harmonias e texturas que encorpam os beats e entregam muito (muito) mais do que um loop de bateria e um sample. Exile segue a linhagem de J Dilla e DJ Premier ao utilizar samples, cirurgicamente picotados, como faróis que guiam elementos orgânicos em seu contorno. O resultado é impressionante: faixa atrás de faixa, sample atrás de sample, a inspiração de Exile não deixa o longo repertório empapuçar. Seja com linhas de piano lindíssimas (“The Feeling” e “Miles Davis”), vozes recortadas cheias de soul (“Requiem Of Blue” e “When The Gods Mets”), Rhodes & Hammonds groovados (“Music Is My Everything”) ou coros épicos à la Kanye (“Troubled Water”), a excelência da produção se mantém em literalmente todas as 20 faixas. E muito por conta da habilidade de Exile, mesmo que o disco obviamente reverbere A Tribe Called Quest ou Gang Starr, ele soa moderno e antenado. Uma linguagem old school envelopada em possibilidades sonoras atuais. É Jazz Rap, mas é Jazz Rap de 2020. Presta homenagem ao passado, de olho no agora. O irônico é que, após Give Me Flowers While I Can Still Smell Them, o projeto seguinte dos dois seria um disco de Trap – ambos desistiram da ideia em 2017.

Em Miles, ouvimos um produtor e um rapper em rara sintonia. Os versos de Blu se combinam às produções de Exile em um equilíbrio perfeito e o resultado é um repertório coeso e vibrante, que, durante os 95 minutos, não perde o fôlego e reserva sempre uma nova descoberta a cada audição. Tudo isso a partir de uma fórmula aparentemente simples: ótimos beats e uma caneta afiada – e às vezes é preciso “só” isso para um disco de Rap memorável.

(Miles em uma faixa: “Requiem Of Blue”)

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ARTISTA: Blu & Exile