Resenhas

Bob Mould – Patch The Sky

Bob retorna com outro álbum intenso e emocional

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Ano: 2016
Selo: Merge
# Faixas: 12
Estilos: Punk, Rock Alternativo, Hardcore
Duração: 44:55
Nota: 4.0
Produção: Bob Mould

Houve um tempo nos anos 1990 em que eu estive atento a velharias sessentistas. Era um tal de ouvir The Doors, Van Morrison e Marvin Gaye compulsivamente, tentando entender o que essa galera pensava e sentia para transformar em letras e melodias tão lindas. Por conta disso, deixei de ouvir muito do que estava sendo feito na época, principalmente as bandas de Seattle, que foram então a face mais acessível do tal Rock Alternativo americano, forjado a duras penas na década anterior, num tempo em que as rádios universitárias ianques cumpriam papel determinante para apresentar a produção underground para o mundo. E dentro deste contexto, Bob Mould teve importância decisiva. Primeiro, ainda nos anos 1980, a bordo do trio Husker Dü, mais tarde, na década seguinte, com outro trio, Sugar, Mould foi um dos arquitetos da sonoridade que propulsionou várias bandas que você ama, entre elas, Nirvana, Pixies, Foo Fighters e por aí vai.

Há cerca de três anos que Mould trabalha novamente em trio, após uma carreira solo em que atingiu bons e maus momentos. Com o baixista Jason Narducy e o baterista Jon Wuster, Bob recuperou sua melhor dinâmica, a de vocalista/guitarrista em trios, podendo exercer sua função com o máximo de eficiência. A sonoridade aerodinâmica e guitarreira que ele inventou permanece como sua maior contribuição, algo que pode ser raivoso ou cinematográfico, dependendo da situação. A música de Mould é sentimental e intensa, ainda mais nestes últimos tempos, quando perdeu pai e mãe em questão de poucos anos. Este seu novo trabalho está cheio de reflexões feitas a partir destas perdas e exalta, ainda que sutilmente na maioria das vezes, o valor desta amizade que une os três, além da possibilidade deles poderem dar viabilidade musical ao que Bob sente. Pode parecer simples e natural, mas nem sempre funciona.

Patch The Sky é um belo disco de Rock, ainda que não alcance o mesmo nível do antecessor, o sensacional Beauty & Ruin. A inspiração, no entanto, permanece fértil na pena de Bob e ele é capaz de entregar um belo conjunto de canções, mesmo que não tenham a força das contidas do trabalho anterior. É o caso da curtinha Hands Are Tied, nona da sequência de faixas de Patch The Sky: são pouco menos de dois minutos da gloriosa sonoridade que Bob forjou desde fins dos anos 1980 e burilou entre experiências e certezas, com uma guitarra que parece sempre elevada a muitas potências, em alta combustão, ritmo acelerado, carro que fura o bloqueio da polícia naquele filme de sempre. A beleza aqui está nas harmonias e na familiaridade com que esta forma de tocar se espalhou nos anos 1990 e você pode reconhecer várias bandas da época e suas sucessoras em atividade ainda hoje. A argamassa sonora é sustentada pela eficiência da cozinha de Narducy e Wuster, sempre presentes e alertas.

Curioso que esta canção pequena – mas trovejante – se destaque em meio a tantas outras. É que ela personifica o lado mais cru da música de Mould, porém nunca deixando de lado a melodia e a capacidade pouco igualada pela concorrência de oferecer refrãos ganchudos e chicletudos para o ouvnte sedento. Porém há o outro lado da Força. As criações climáticas, que são em menor número, mas que marcam sua presença. Monument, sua maior representante no disco, não por coincidência, fecha a sequência de faixas com cinco minutos e meio de uso inteligente de timbres, delicadezas harmônicas e uma beleza de arranjo climático. Mesmo que o baixo e a bateria surjam em algum momento antes do primeiro minuto, a impressão que temos – e totalmente verdadeira – é que a canção poderia ser executada sem muito prejuízo, apenas por voz e violão, tamanha a capacidade que Bob tem de deixar as cordas fazerem coro para sua voz. Há outras belezuras por aqui, claro. Lucifer And God propõe paredes de guitarras que, na verdade, são apenas uma; Daddy’s Favorite é sujinha e tem alma Punk do início dos anos 1990, enquanto You Say You também se vale de andamento rápido em meio ao paredão de seis cordas que parecem 36, todas tocando na mesma direção.

A sonoridade de Bob Mould não seria tão genial se seu canto não passasse a certeza da verdade, da emoção na flor da pela, do coração na garganta ou na ponta de chuteira, dependendo do seu referencial emocional. O que fica aqui é a belezura de mais um álbum muito acima da média e com cacife de sobra para credenciar o cinquentão Bob como uma das forças criativas – e discretas – do Rock dos últimos 30 anos. E que permanecerá discreta, como a maioria dos verdadeiros e bons arquitetos.

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BOM PARA QUEM OUVE: Pixies, Foo Fighters, Robert Pollard
ARTISTA: Bob Mould

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.