Resenhas

Bon Iver – i,i

Novo álbum de Justin Vernon pode ser o resgate de um senso de redenção que parece ter evaporado da narrativa musical dos últimos anos

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Ano: 2019
Selo: Jagjaguwar
# Faixas: 13
Estilos: Eletrônica, Folk, Indie
Duração: 39’
Nota: 4.5
Produção: Chris Messina, Brad Cook, Justin Vernon

Há algum tempo, ao falar de Age Of (2018), álbum de Oneohtrix Point Never, eu escrevi que “a resposta da Música Eletrônica para a contemporaneidade terá a ver com o cataclisma de forças que regem a sociedade”. Isso porque o gênero musical consolidou no imaginário do público uma estética fragmentada, construída a partir de timbres metálicos e cenários de destruição, uma espécie de tradução musical para a tensão do mundo em que vivemos.

Bon Iver, projeto liderado por Justin Vernon, nasceu dentro da lógica Folk, propondo uma música feita no isolamento das montanhas, invernal, tocada no violão. No entanto, com a chegada do álbum 22, A Million (2016), resultado do trabalho de Vernon com artistas como James Blake e Kanye West, o projeto se tornou um dos grandes representantes dessa linhagem complexa do Pop. i,i é o resultado mais equilibrado, até agora, de todas as linguagens que o artista já explorou. Produzido em conjunção com uma banda, ao invés de ser resultado de uma empreitada solitária como seus antecessores, o álbum soa menos arredio e mais comunicativo. Aqui, a introversão do violão dedilhado une-se a uma produção sofisticada para aludir à necessidade de um novo senso de comunidade.

i,i traduz o excesso de informação da contemporaneidade, manifestada através do acesso irrestrito aos produtos culturais da humanidade. As músicas e os videoclipes manifestam-se através de textos enigmáticos misturados com a lógica publicitária, pop-ups, comportamentos irônicos e tendências da moda. Nomes, versos, refrãos, soam como expressões resmungadas, universais, que não se preocupam tanto com a clareza discursiva, mas são muito eficientes ao compartilhar estados de espírito. Tudo isso, reunido em um só lugar, acaba por evocar um estilo de vida saturado, mas rico por conta de suas muitas camadas de complexidade.

“Sh’Diah”, acrônimo para “Shittiest Day in American History,”, relembra a manhã após o dia da eleição de 2016, em que Donald Trump venceu. Outras músicas, como “Naeem”, “Faith” e “Jelmore”, evocam a crise ecológica, deixando transparecer um futuro trágico e irreversível. Entre essas, faixas como “Hey Ma” brilham como pontos de luz, oferecendo algo de familiar: uma imagem concreta em meio ao caos, como em uma terapia de regressão na qual nos lembramos de circunstâncias que realmente importam. 

O grande valor de i,i parece ser o resgate de um senso de redenção que parece ter evaporado da narrativa musical dos últimos anos. Nesse sentido, a música de Bon Iver, por mais intrincada que possa parecer, consegue despertar um senso de conforto importante para o ouvinte que quer sobreviver à ideia de que o fim do mundo se aproxima.

(i,i em uma música: “Hey, Ma”)

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ARTISTA: Bon Iver
MARCADORES: Folk, Indie

Autor:

Discreto e silencioso. Falo pouco, ouço bem, porém.