Resenhas

Boogarins – Sombrou Dúvida

Banda usa o fator surpresa a seu favor e prova de uma vez por todas que o termo “psicodélico” não basta para seu som

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Ano: 2019
Selo: Lab344/OAR Records
Estilos: Psicodélico, Trip Rock, Noise
Duração: 41'
Nota: 4
Produção: Gordon Zacharias e Benke Ferraz

Está se tornando cada vez mais reducionista se referir a Boogarins como apenas “psicodélico”. Com uma discografia invejável em sua complexidade e potência lisérgica, o quarteto goiano construiu muito de sua reputação pelo aspecto camaleônico de sua obra. Ou seja, estar diante de um disco da banda é aceitar o completo desconhecido e imprevisível. Enquanto seu primeiro disco, As Plantas Que Curam (2013), apontava para uma crueza psicodélica mais voltada para o Noise da coisa, seu terceiro trabalho procurava nos descompassos da música eletrônica o transmissor perfeito para expor sua letras, tão enigmáticas quanto sarcásticas.

Assim, resumir toda esta trajetória de sonoridades ao psicodélico é tentar planificar esta essência multifacetada em um plano simplório. Esta talvez seja uma advertência válida a ser dada para aqueles que desejam adentrar pelo mundo sombrio e duvidoso do quarto disco da banda, uma advertência que se não dada poderia enquadrar este disco em lugares comuns injustos.

Sombrou Dúvida é a expressão máxima de um grupo que procura por meio de sua música expor o reflexo de um existencialismo jovem, porém latente de uma geração. Sonoramente ele parece ser um meio termo entre o noise forte da estreia do quarteto há seis anos, com a progressiva desconstrução de arranjos e timbres do disco anterior a este. Aliás, “desconstrução” talvez seja a palavra chave deste trabalho e o processo pelo qual percebemos Boogarins passar de forma intensa. Parece que as dúvidas, as metáforas e fugas aqui construídas parecem totalmente fragmentadas, como se toda a odisséia lírica construída até o presente disco tivesse seriamente transformado o grupo, ao passo que sua sonoridade só pudesse dar vazão a estes sentimento se fosse desconstruída também.

A estética psicodélica ainda é muito clara, mas parece que ela não dá conta de passar o recado e, assim, intervenções, barulhos, sonoplastias, vozes obscuras e escuras pintam tons diferentes dos que estávamos acostumados até então. Parte do trabalho também consiste em tentar decifrar e unir as peças do quebra cabeça, fato que vem sendo compartilhado nas redes sociais do grupo em divertidas análises de tentam chegar ao cerne de seu tema, indo de sexo oral, política, alcoolismo entre outros temas.

Com onomatopeias que distorcem os tons, As Chances orienta o ouvinte a seguir um caminho que julgamos ser conhecido, mas aos poucos o grupo vai pincelando elementos quase esquizofrênicos e quando vemos, já estamos à deriva da desconstrução. Invenção lembra um Lucifernandis distante, como se evocasse memórias distantes distorcidas ao som das dúvidas. A Tradição nos conduz em meio aos fragmentos por meio de uma melodia pegajosa e imprevisível, típica do segundo disco da banda, Manual. Já Desandar abusa dos sintetizadores para criar aquela atmosfera lisérgica clássica. Por fim, a batida eletrônica de Passeio une influências distintas no parece ser uma ótima representação de todo o universo criado neste disco.

A surpresa é um fator que Boogarins sempre soube usar habilidosamente e, neste último disco, isto não é exceção. O título que dá indícios de uma construção sonora mais melancólica e soturna. Juntamente com este ar de dúvidas que paira impiedosa e dilacerante pela nova década que se anuncia: todo isso faz deste, um trabalho bem dosado e instigante. Um disco que mostra em Boogarins a potencialidade de acompanhar as mudanças dos novos tempos e coragem de encará-las.

(Sombrou Dúvida em uma faixa: A Tradição)

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BOM PARA QUEM OUVE: Glue Trip, Lê Almeida, Yuck
ARTISTA: Boogarins
MARCADORES: Noise, Psicodelia

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.