Resenhas

BOOTS – Aquaria

Estreia do produtor Jordan Asher é surpreendente

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Ano: 2015
Selo: Sony
# Faixas: 11
Estilos: Eletrônica, Alt. R&B, Experimental
Duração: 38:32
Nota: 4.0
Produção: Jordan Asher

Quem diria, hein, BOOTS? Confesso certa má vontade inicial ao fazer esta resenha pois Jordan Asher, o nome por trás do projeto, é um cara talentoso, mas que parecia cooptado pelo mercadão musical através de participação decisiva no “álbum surpresa” de… Beyoncé. Tal fato, principal cartão de visitas de Asher/BOOTS, não me parecia algo capaz de anunciar um artista relevante e com algo a dizer. Errado, muito errado. Aquaria, o primeiro álbum que vem com a chancela de Jordan é um pequeno diamante Eletrônico perdido num continuum espaço tempo entre os anos 1990 e algum lugar que não é este presente que temos aqui, onde artistas indigestos e indigentes lotam enormes espaços com uma música Eletrônica estéril e afeita ao pendrivismo dançante. BOOTS é outro papo.

Antes de mais nada, esqueça os grandes estádios, as latas de energético, a coreografia tosca. As onze canções oferecidas aqui são para a circunavegação pessoal e solitária. No máximo, com boa vontade, dá pra compartilhar com poucas pessoas amadas e de confiança. A matriz sonora está na encruzilhada composta por refugos das sonoridades industriais de Nine Inch Nails e restos de linhas de baixo e batidas esquecidas por Tricky. A isso você pode somar certa sensibilidade R&B muito en passant e uma capacidade de fazer essas influências – manjadas até certo ponto – soarem novas, crocantes e sombrias, tudo ao mesmo tempo. Há barulho, há tensão, há grooves dançantes em câmera lenta e uma certa dose de paranoia na escuridão, algo essencial para o clima que a música eletrônica mais interessante sugere. Sei que sol é bonitinho as nuvens de algodão, mas, baby, a ideia por aqui é outra.

A primeira faixa, Brooklyn Gamma é um excelente cartão de visita. Baixo pesado, percussão de hi-hat ensandecido chegam logo após um curto ápice de ruído. O caminho então se coloca à disposição para ser trilhado, com cordas e vocais que se desdobram. O primeiro single, C.U.R.E, vem logo em seguida, com a mesma aparelhagem da canção de abertura, mas com linha de vocais derivada do Rap mais enraivecido, anestesiada em meio ao caos instrumental posto em ordem por Asher. O resultado é doentio e superpop ao mesmo tempo. Oraclies já é um arremedo de balada, no uso mais amplo deste tempo como licença poética. Tem dedilhados de violão engolfados por baixo e bateria antropófagos, gerando uma criatura Trip Hop inesperada, com vocais harmoniosos. Bombs Away já é mais dinâmica, com vocais de noite passada e dinâmica enfumaçada em meio a samples de guitarras estranhas e teclados onipresentes fazendo clima.

I Ran Roulette é quase uma sobra de estúdio de Trent Reznor, no melhor sentido do termo, ainda que exiba certa inclinação para a dança, mais do que toda a obra de Reznor. Gallows é display de batidas quebradas, efeitos metálicos diversos, andamento anguloso e sintetizadores exibindo pequenas golfadas de linha de baixo enquanto os vocais surgem lá de baixo. A faixa título é propulsionada por palmas sintetizadas e exibe vocais unissex, com, digamos, um pouco mais de simpatia pelo que se entende por canção Pop hoje, mas ainda muito distante de qualquer mesmice ou assepsia em excesso. Earthquake é lírica, tem vocais negros clássicos, algo como se um cantor clássico de Black Music de outro tempo fosse sequestrado e obrigado a colocar a voz numa maçaroca sonora com enorme tensão instrumental e impressão de conter uma erupção vulcânica iminente. O flerte com a música negra mais tradicional continua em Only, uma bela espécie de R&B cantado numa casa de shows em algum planeta de Alpha ou Proxima Centauri, abrindo passagem para Dead Come Running, igualmente negra, porém mais caótica, totalmente afeita ao repertório de Tricky. Still fecha o percurso, talvez a mais otimista canção do disco, a que mais olha para o céu em busca do amanhecer, cheia de acordes belos e com jeito de final feliz.

Pode ser impressão, pode ser o efeito das canções, mas Aquaria consegue encapsular belas referências musicais e BOOTS se oferece para excecutá-las, reintepretá-las e colocá-las em voga novamente. Surpreendente é pouco para descrever.

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BOM PARA QUEM OUVE: Nine Inch Nails, The Weeknd, Tricky
ARTISTA: BOOTS

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.