Resenhas

Brian Eno e Karl Hyde – Someday World

Parceria entre grandes nomes não poderia render menos do que um ótimo disco

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Ano: 2014
Selo: Warp
# Faixas: 9
Estilos: Eletronica, Pop/Rock, Synth Pop
Duração: 44:23
Nota: 4.5
Produção: Brian Eno e Fred Gibson

Poucas apostas seriam tão improváveis para este 2014 quanto um disco Pop de Brian Eno. Mesmo em momentos colaborativos (inúmeros em sua vasta e importantíssima carreira), Eno não visitava o formato convencional de canção há muito tempo. Ainda que Someday World fosse um disco fraco, já seria marcante por conta dessa rara aparição, mas o álbum é sensacional, totalmente inserido no contexto mais objetivo de Eno, ou seja, a elevação da música mais popular a um patamar artístico e global, emprestando tons e ritmos de outros lugares, levando o formato de três, quatro minutos a passear por universos que proporcionam sempre diversidade, relevância e inquietação. Não é exagero atribuir a palavra “gênio” quando mencionamos o criador da Ambient Music, o sujeito que reinventou David Bowie e desencadeou a maioria dos processos criativos mais importantes dos anos 1970 em diante.

Eno tinha vários esboços de canções com o formato Pop e decidiu chamar Karl Hyde para completá-las, após ouvir a estreia deste em carreira solo, Edgeland, lançada ano passado. Com timbre de voz marcante e vasta experiência na cena eletrônica londrina do fim dos anos 1980 em diante, Hyde era o contraponto ideal na empreitada. O resultado é um tradicional trabalho com a marca de Brian Eno, que pode funcionar lindamente como um guia resumido de suas habilidades na música. A presença de Hyde, além de convidados como Will Champion (Coldplay) e Andy MacKay (Roxy Music) confere um ar mais plural a Someday World, ao mesmo tempo que adiciona profundidade e mais cores na paleta que Eno usou para moldar e produzir as canções completas.

O resultado lembra bastante os primeiros quatro álbuns de Brian Eno – logo após deixar o Roxy Music em 1972, além de suas decisivas colaborações com Talking Heads, seu vocalista e cérebro, David Byrne e mesmo da trilogia berlinense de David Bowie. É um álbum curto e objetivo, que acena com uma audição sem espaço para muitas divagações. A abertura com The Satellites contém uma introdução de Funk étnico e de matriz africana, que deságua numa levada sintetizada que poderia ser de Scary Monsters (disco de 1980 de Bowie) ou da fase inicial do Depeche Mode, um dos mais aplicados filhotes da vertente eletrônica de Eno nos anos 1980. Mais adiante, as duas alternativas se fundem na faixa, dando uma impressão moderna e plural. Daddy’s Car, o single do disco, é a próxima canção, imersa nos Afrobeats que tanto distinguiram o Talking Heads inicial, cheia de acenos polirrítmicos e percussão exuberante.

A levada é harmoniosa, assoviável, também lembrando bastante as colaborações com David Byrne em My Life In The Bush Of Gods, álbum que a dupla lançou em 1981. Man Wakes Up segue na mesma trilha, com destaque para a presença “gorda” de contrabaixo e elementos da Juju music africana, que se mesclam em paisagens variáveis em termos de intensidade, parecendo uma sobra das sessões de Remain In Light, disco de 1980 de Talking Heads. Witness é uma pequena preciosidade Synthpop, cheia de mudanças de direção, moderna que só ela, capaz de fazer corar de vergonha todas as formações de 2000 para cá que se arrogam a fazer canções dentro desse gênero. Strip It Down é outro exemplo de explendor Synthpop, mas pela viela mais contemplativa do estilo, com pianos insinuantes, baixo sintetizado e percussão robótica fundida à humana, criando um caldeirão de reminiscências “bowianas” e experimentações familiares.

A introdução de Mother Of A Dog é puro 1981, com baterias e timbres sintéticos, que são envolvidos por uma trama de baixo e teclados ao longe, que preparam o clima para os vocais tristes e fugidios de Eno e Hyde espalharem desolação por toda parte. Who Rings The Bell é mais um exemplo de fusão de teclados espaciais com percussão e guitarras afro, que se insinuam incontroláveis, numa espécie de releitura involuntária de So, disco de 1986 de Peter Gabriel, outro colaborador de Eno no passado. When I Built This World traz o subtexto que permeia todo o disco: a distopia humana no século XXI, o dobrar sobre si mesmo diante de tanta informação, do crescimento das cidades, a solidão das multidões. É uma versão mais estéril e menos colorida do mesmo clima de Ela, filme com Joaquin Phoenix e a voz de Scarlett Johansson. O fecho do disco vem com a contemplativa e bela To Us All, cheia de crescendos e alternâncias de clima, com pinta de canção da paz mundial, de redenção e discreta celebração.

Brian Eno e Karl Hyde conseguiram criar um pequeno espetáculo pós-moderno em termos musicais. Someday World é um disco sobre a pequenez humana, que usa de vários elementos da canção africana, da música do Oriente Médio, além das variantes miscigenadas, típicas das cidades e dos movimentos populacionais da segunda metade do século passado. É cheio de urgência e traz elementos poderosos em termos estéticos, atingindo o status de poderosa reflexão sobre o tempo presente, essa estranha convenção que parece se dobrar infinitamente, não sobrando muito espaço para passado ou futuro. Um pequeno milagre.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.