Resenhas

Brian Eno & Roger Eno – Mixing Colours

Parceria entre célebres irmãos da Ambient Music cria experiência sonora/reflexiva propícia para tempos tão incertos

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Ano: 2020
Selo: Opal Music/Deutsche Grammophon
# Faixas: 18
Estilos: Ambient Music
Duração: 85'
Produção: Brian Eno

Em tempo de isolamento social massivo e pandemia mundial, a Ambient Music tem cumprido seu papel como uma experiência capaz de reduzir alguns efeitos angustiantes deste contexto. Longe de ser apenas uma “música calminha para relaxar”, o gênero procura, desde os anos 1970, experimentar novas formas de construir texturas sonoras e contar narrativas (muitas sem expressar uma palavra sequer). Assim, quando o nome mais conhecido e pioneiro do gênero, Brian Eno, anuncia que lançará um disco em colaboração com seu irmão mais novo Roger Eno, é difícil conter a ansiedade, indagando-se sobre que mundo os irmãos Eno nos apresentarão desta vez. Para nossa surpresa, o movimento que suas composições produzem não nos tiram da angústia pandêmica, mas, sim, a ressignificam tanto pelo conteúdo, quanto pela história que as cercam.

Brian já coleciona registros históricos da Ambient Music, como a série Ambient (1978-1982) e o épico Apollo: Atmospheres & Soundtracks (1983). Já Roger, apesar de um pouco menos conhecido que o irmão, traz para a mesa colaborações com outros artistas como tentativas de experimentação mais ousadas. Dentre elas The Appointed Hour (1999), com o guitarrista Peter Hammill, e Harmonia Meets Zappa (1994), obra conjunta com o grupo italiano Harmonia que revisita as músicas de Frank Zappa. No entanto, a parceria dos irmãos não é algo inédito, pois há sempre o dedo de um nos projetos do outro, seja na produção de Brian ou na instrumentalização de Roger. Contudo, Mixing Colours é o primeiro registro que os dois assinam juntos, em uma colaboração ativa e bastante curiosa.

A história que envolve o registro é que as 18 faixas presentes neste registro, todas nomeadas com nomes de cores, acompanham um processo criativo de mais de uma década. Roger costumava gravar alguns excertos no piano ou nos sintetizadores e enviar via e-mail para Brian. Este, por sua vez, trabalhava o aspecto das ambientações e engenharia de som, procurando ajustar efeitos específicos de acordo com a demanda de cada composição de Roger. Assim, o que temos é uma longa conversa de anos entre dois irmãos por meio de melodias ecoantes e que se estendem tanto quanto os anos passados no processo de compilação e composição das faixas. Segundo Brian, seu objetivo durante a produção era que as músicas pudessem produzir calma no ouvinte, mas também proporcionar um espaço no qual ele possa refletir e pensar.

De fato, o disco produz muito espaço. Em mais de uma hora de reprodução, as faixas procuram envolver o ouvinte nessa missão. Apesar de todas estarem direcionadas para este objetivo, cada uma produz uma particularidade, o que resulta em diferentes espaços a serem ocupados. A faixa de abertura “Spring Frost”, por exemplo, pincela toques de metalofone à medida que os sustenta por sintetizadores sutis. “Dark Sienna”, por sua vez, deixa o piano melancólico como definidor do humor, em tons mais reflexivos. “Iris” permite um espaço menos ocupado por ecos, e evidencia uma melodia de piano cuidadosa. Já “Slow Movement: Sand”, brinca com as características da repetição, imprimindo efeitos mais duradouros e suaves.

Estes são alguns exemplos da peculiaridade de cada composição, mas talvez a maior delas venha pelo contexto de seu lançamento. Lançar um disco que cria espaços para reflexão e pensamento, em plena pandemia mundial, talvez amplie a experiência proposta. O fato do disco ser composto por irmãos convivendo à distância também reflete o momento em que temos que nos isolar para construir algo. Brian e Roger Eno produzem uma grande metáfora dos tempos modernos, uma que precisou de 15 anos para ser amadurecida, e talvez precise de um tempo similar para ser internalizada e apreciada.

(Mixing Colours em uma faixa: “Slow Movement: Sand”)

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ARTISTA: Brian Eno

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.