Resenhas

Brian Eno – The Ship

Novo álbum está entre os melhores trabalhos da carreira do artista

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Ano: 2016
Selo: Warp Records
# Faixas: 4
Estilos: Ambient, Eletrônico, Experimental
Duração: 47:30
Nota: 5.0
Produção: Brian Eno

Hoje em dia, em pleno 2016, ouvir um disco inédito de Brian Eno é um acontecimento. Eno, antes de mais, nada, é um erudito, um Homem da Renascença, um gênio, sem qualquer sombra de exagero. O sujeito é responsável por várias revoluções na música popular, incorporou a Eletrônica e a exploração de sentidos como nenhum outro artista, conservando, ainda assim, algo de acessível em suas criações. Mais ainda: Eno sempre olhou com carinho para as formas mais populares de música, sempre antenado, sempre procurando colaborar com outros artistas, em várias direções. Com o passar do tempo, sua função como arquiteto/pintor sonoro se impôs às várias outras que desempenhou no mundo criativo da música. Esta característica sempre soou mais forte em seus álbuns de Ambient Music e The Ship, este belíssimo novo trabalho, se insere nesta nobre linhagem de discos.

The Ship ganhou vida como trilha sonora tridimensional para uma exposição de arte em Estocolmo, um campo no qual Eno tem se aventurado há tempos. Depois evoluiu para o formato estéreo e ganhou contornos de álbum a partir do interesse do homem pela Primeira Guerra Mundial e outro evento ocorrido próximo na linha do tempo: o afundamento do Titanic. Mais que isso: Brian procura utilizar a paisagem marinha – com e sem a presença humana – como uma poderosa alegoria para o passar do tempo e como tal fato pode soar sem sentido, uma vez que, poucas vezes o movimento das ondas denota alguma alteração substancial nas vidas. Entretanto, segundo a linha de raciocínio, sem tal movimento, seria impossível qualquer mudança.

Pensando que tais fatos poderiam ser considerados análogos e cheio de vontade de explorar este universo de tensão e aflição humanas, Eno compôs uma peça musical, que tem o título do álbum, com duração superior a 21 minutos, tempo no qual Brian Eno ergue um verdadeiro universo de sons e possibilidades. Através da superposição de notas em sintetizadores, sons marinhos, ruídos de sonar, vozes fantasmagóricas, transmissões de rádio, cantos elementais e toda sorte de registro sonoro natural e humano, o ouvinte é convidado a embarcar numa apreciação deste naufrágio colocado numa perspectiva de espectador próximo, quase vivenciando o evento. É tudo muito bonito e pungente. Como se não bastasse a aventura proposta, Brian ainda “canta” entoando versos e frases como se fosse uma espécie de híbrido entre Netuno/Poseidon e as crenças mais contemporâneas de divindade marinha, obrigando-nos a prestar atenção a todos os detalhes – que são muitos.

A outra faixa, que, em tempos de LP, ocuparia o lado B, Fickle Sun, surge em três movimentos. O primeiro é semelhante em formato à faixa-título, ostentando 18 minutos de reminiscências sobre estas histórias do início do século 20, sempre sob o ponto de vista do observador e do espectador casual, uma vez que Brian fez questão de dizer que algumas das histórias que ele usou como inspiração para as canções são de conhecimento seu, mas outras ele só saberia à medida que fosse compondo as obras. Exceção a esta regra é a belíssima e inesperada versão que ele comete para I’m Set Free, canção de Lou Reed, gravada por The Velvet Underground em 1969. Os vocais limitados de Eno são colocados a favor da melodia e belíssima letra de Reed, num momento de raríssima participação do homem em fronteiras além da música instrumental. Por uma dessas ações geniais, a canção se integra ao contexto do álbum, especialmente por sua noção ambígua de liberdade, simbolizada no belo verso “eu estou livre, livre para viver uma nova ilusão”.

Tudo em The Ship é tão bonito e bem pensado que me pergunto se ainda há espaço numa carreira multi-vencedora como a de Brian Eno para mais uma obra prima. Em poucos segundos vem a resposta: isto não é problema nosso, mas dele. Sendo assim, não há como enxergar este novo álbum de forma diferente. Audição essencial em 2016 e a qualquer tempo.

(The Ship em uma faixa: The Ship)

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.