Resenhas

Brian Setzer – Rockabilly Riot! All Original

Guitarrista americano retorna em grande estilo com repertório inédito

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Ano: 2014
Selo: Surfdog
# Faixas: 12
Estilos: Rockabilly, Rock, Swing
Duração: 39:58min
Nota: 4.0
Produção: Peter Collins

Brian Setzer continua vivo, forte e bem humorado o bastante para continuar sua via mui particular dentro da malha rodoviária do Rock. O homem é um daqueles “músicos dos músicos”, reconhecido pela destreza na proposta e pela habilidade no dedilhar de suas guitarras vintage ao longo de três décadas, sempre com resultados de altíssima octanagem. Ele reviveu o estilo primordial do Rock nos anos 1980, quando liderava uma das formações mais bacanas daquela época, Stray Cats. Cerca de dez anos depois, lá estava Setzer mais feliz que palheta em loja de guitarras, montando sua própria big band, a Brian Setzer Orchestra. Com ela e seus 18 integrantes, ele pode dar maior amplitude às revisitações de todos os ícones possíveis e imagináveis dentro desta América cinquentista tão querida por todos nós. E sabemos muito bem: em tempos tão distópicos como os atuais, o grande ouro pode estar no que todos entendem como “passado”, mas que pode ser novíssimo para quem nunca ouviu falar do assunto. O novo, já dizia o profeta, sempre vem.

O grande fator de distinção de Setzer em relação a um jacu obsecado pelo passado é sua enorme criatividade. Mesmo quando ele desfile repertórios de covers e reinterpretações de sucessos remotos, há sempre algum detalhe de colorido instrumental, atitude ou mesmo na forma de encarar a realidade de levar adiante um estilo musical moribundo e que só funciona (ria) como um exercício de emulação. Brian Setzer foi adquirindo fluência tamanha no idioma Rockabilly que nem notamos qualquer coisa. É um músico (e dos melhores) usando seu idioma mais fluente, com a agradável atitude de viver por aí sem levar em conta qualquer fator histórico que tenha ocorrido após, vejamos, no máximo, 1962.

Neste novíssimo disco, Rockabilly Riot! All Original, Setzer saiu da zona de conforto proporcionada pela convivência com sua Orchestra, montou um quarteto com Mark Winchester (baixo), Kevin McKendree (piano) e Noah Levy (bateria), no qual assumiu sua posição principal como guitarrista e cantor, ideal para um repertório de canções doze canções novíssimas e inéditas, nas quais ele percorre seu parque temático musical com muita desenvoltura. O primeiro single Let’s Shake é a primeira canção do álbum, com energia suficiente para iluminar um pequeno bairro da cidade, cheia de solos enguitarrados precisos e pianos galopantes que prestam homenagem ao Killer Jerry Lee. Rockabilly Blues inicia sorrateira, cheia do dedilhado que Setzer cravou na memória afetiva dos fãs de Stray Cats. A bateria é supersônica e tudo cheira a barzinho empoeirado de beira de estrada, daqueles que sempre existirão em qualquer época. Vinyl Records é um rockão clássico e polido, elegante, brejeiro e cheio de topetes atemporais. Lemme Slide é cheia de guitarras e andamento no estilo jumpin’jive, com casais dançando aos pulos pelo salão.

O baile segue firme com Nothing Is A Sure Thing, moderna, malandra e com cara de malvada, fugindo completamente do que se entende classicamente por Rockabilly, enquanto What’s Her Name também foge do padrão datado para embrenhar-se em terrenos oitentistas, com andamento marcado e cheio de paradas. Calamity Jane recoloca o trem nos trilhos mais clássicos e a belezura que é The Girl With The Blues In Her Eyes, a melhor faixa do álbum, se aproxima das baladas de amor distante e perdido, um dos ramos mais sólidos e importantes da música popular americana desde que o Rock nasceu. O bom rapaz que chora pelo amor distante sai de cena para a entrada do boêmio rocker em Stiletto Cool, enquanto o culto aos carrões – algo que nunca sumiu da sociedade americana – dá as caras em I Should Have A V-8, com introução despistante e andamento cheio de alternâncias. A contemplação da cidade grande como grande ecossistema a partir da segunda metade do século passado surge bonita em Blue Lights, Big City, preparando o caminho para o gran finale com a caipira e endiabrada Cock-A-Doodle Don’t.

Brian Setzer é um grande cara, daqueles que sentimos vontade de conversar no bar, ouvir seus casos e partilhar dessa capacidade imensa de trafegar pelos caminhos roqueiros sem qualquer entrave. Sua obra é tão americana como o hamburger, a Disneylandia e a Coca-Cola. E sempre vai haver gente interessada nisso ao longo do tempo. Claro que sim.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.