Resenhas

Brittany Howard – Jaime

Primeiro disco solo da cantora e compositora procura unir opostos por meio de narrativas cruas contornadas por um experimentalismo cativante

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Ano: 2019
Selo: Sony Music
# Faixas: 12
Estilos: Garage Rock, Experimental, Psicodelia
Duração: 35’
Nota: 4.5
Produção: Brittany Howard

Este é o primeiro trabalho que Brittany Howard assina sozinha, mas não é sua primeira empreitada fora do Alabama Shakes. A compositora já havia esboçado expressões mais pessoais em Thunderbitch, um projeto de Rock agressivo e verdadeiramente Punk, bem como em Bermuda Triangle, uma parceria Folk de canções melodiosas e sinceras. Entretanto, seu novo disco Jaime traz uma nova percepção em relação ao sua carreira. Agora, ela procura sintetizar as características de outras investidas e ressaltar seus pontos altos. Isso, é claro, sem deixar de nos apresentar sua faceta mais sensível ao contar-nos uma história inegavelmente emocionante. 

Jaime é o nome de sua irmã, falecida aos treze anos por conta de um câncer. Brittany conta que sua relação com ela era totalmente envolta por música, acordes de guitarra e canções que costumavam cantar juntas. Entretanto, o que poderia ser encarado com uma espécie de “elogio fúnebre”, torna-se muito mais forte que isso. Em Jaime, Brittany quer contar sua história pela crueza dos fatos e não disfarçá-la por trás de metáforas. Sua narrativas são importantes justamente porque a compositora não procura nos poupar ou procurar a melhor maneira de comunicar ao seu ouvinte o que ela quer transmitir: ela apenas canta sua vivência. Mas, esse “apenas” cantar (principalmente se tratando de Brittany Howard) é o suficiente para nos deixar completamente sem palavras.

Os timbres distorcidos, excessos de compressão de áudio e destaque para a ambientação podem nos remeter especialmente a sonoridade explorada em Sound & Color (2015), segundo disco de Alabama Shakes. Até mesmo o projeto Punk de Brittany, Thunderbitch, encontra espaço para se expressar nas minúcias destrutivas de Jaime. Mas, a singularidade deste disco está justamente na forma como a artista (e também produtora do disco) se permite atravessar gêneros sem necessariamente se comprometer em encaixar suas canções em algum desses. 

O disco tem um toque psicodélico, mas firma os pés fortemente no Folk. Procura a agressividade do Punk/Garage, mas não dispensa a melodiosidade das baladas dos anos 1950/60. Trabalha com timbres estranhos, mas não abre mão da harmonia como recurso principal para sustentar a potente e destruidora voz de Brittany. O resultado é uma espécie de metonímia acidental, utilizada para explicar o próprio propósito do disco: as contradições da vida e, ao mesmo tempo, a beleza disso.

Há muitos momentos no LP em que misturas aparentemente contraditórias se juntam. A combinação imprecisa de Bossa Nova e caos à la Deerhoof da faixa de abertura “History Repeats”. A soturnez dos versos românticos de “Georgia”, aliada a uma percussão violenta. O apelo R&B de “Tomorrow”, que encontra nos acordes compostos do Jazz uma fonte de reflexão. A nostalgia sonora de “13th Century Metal” misturada a uma linha de bateria contemporânea e uma espécie discurso revigorante por parte de Brittany. A suavidade da batida de “Goat Head” aliada a uma intensa narrativa sobre um ataque racista (um episódio em que, quando criança, o carro de sua família foi arrombado e deixaram sobre ele a cabeça de uma cabra decepada).

Brittany consegue se conectar com que se propõe a ouvi-la por meio de uma narrativa impiedosa que exige muito de nós mesmos. Tal qual Aretha Franklin, sua voz é um instrumento extremamente poderoso, capaz de nos conduzir para onde ela bem entender. Assim, todo seu poder é direcionado para que nós sejamos capazes de compreender a vida de uma forma crua. Mas, que nem por isso, se torna triste ou melancólica: só real. E devemos isso a Brittany, por nos permitir enxergar as coisas dessa forma.

(Jaime em uma faixa: “Goat Head”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.