Resenhas

Bruno Berle – Arapiraca, Maceió, 2013

Compositor alagoano produz disco sincero e introspectivo

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Ano: 2014
Selo: Independente
# Faixas: 8
Estilos: Post-Rock, Pós-MPB,
Duração: 24:30
Nota: 4.0
Produção: Filipe Barros Mariz
SoundCloud: /tracks/181588892

Normalmente quando ouvimos um disco entramos em contato direto com os sentimentos do compositor e, na maioria das vezes, nossa recepção para com este trabalho varia com nossa percepção dos temas expostos e da forma como eles são narrados. Entretanto, acontecem casos em que melhor do que analisar nossa reação frente ao mundo do compositor é isolar o artista e sua obra, limitando nossa função a apenas de observador. Este segundo caso se encontra plenamente representado no primeiro trabalho solo do alagoano Bruno Berle, que ganha o título por causa da história de amor com as duas cidades.

Arapiraca, Maceió, 2013 é um momento único que raramente temos a oportunidade de ver. Tal qual Justin Vernon nos mostrou no brilhante For Emma, Forever Ago, estamos apenas observando o contato de Bruno com seu imaginário de uma forma extremamente passiva. É raro estar presente em um momento destes, mais ainda quando ele manifesta em forma de um disco tão sincero, honesto e livre de preocupações. Aliás, a esta “falta de preocupação” é um sentimento constante nas músicas de Bruno que, embora seja alagoano, mostra todos os sinais do estereótipo baiano relaxado, quase como um Novo Baiano moderno.

Bruno transita entre diversos gêneros, mas o que traz a maior paz ao disco é a fusão deles. O violão despreocupado da MPB encontra com uma ambientação etérea e confortável do Post-Rock, como se fossem o encontro de dois rios: não é tenso, nem manso; apenas cria uma textura nova e interessante. Além do mais, a mixagem de Filipe Barros dá um toque meio Lo-Fi que une todos os elementos em um mesmo ambiente: a cabeça, a memória e o imaginário de Bruno Berle.

Enquanto observamos o mundo do compositor, vemos como sua cabeça roda por diversos temas, todos unidos por uma poética impar. O Mundo abre o disco nos mostrando o cuidado e o zelo que Bruno tem por seu trabalho, afirmando “Hoje, o mundo é só meu e você vai me segurar”, quase como ele pedisse para que nós o agarremos para que ele não se perca neste fantástico mundo. O Frio alterna a memória de seus sentimentos com sonhos, como dito na frase “…eu posso abrir o mar”. E, por vezes, Bruno afirma seu gosto particular pela memória, lembrando de várias ocasiões, representada na última faixa, Águas.

Bruno Berle afirma seu lugar na cena brasileira, mostrando um talento incondicional para a poesia, música e, principalmente, a relação harmônica entre as duas. Explorando gêneros, usando sua mente como objeto de estudo e criando universos confortáveis para se viver, o trabalho do alagoano é um dos casos daqueles discos que podem figurar nas listas de melhores do ano aos 45 minutos do segundo tempo.

Um caso de amor entre compositor e obra, bonito de se ver.

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BOM PARA QUEM OUVE: Cicero, Marcelo Camelo, Wado
ARTISTA: Bruno Berle
MARCADORES: Folk, Ouça, Pós-MPB, Post-Rock

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.