Resenhas

Bryan Ferry – Avonmore

Novo álbum traz convidados como Johnny Marr e Nile Rodgers e mantém a velha classe de sempre

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Ano: 2014
Selo: BMG
# Faixas: 10
Estilos: Rock, Art Rock, Glam Rock
Duração: 43:18min
Nota: 4.0
Produção: Rhett Davies, Bryan Ferry e Todd Terje

Bryan Ferry é destes raríssimos artistas que não envelhecem. Sempre haverá espaço na contemporaneidade para alguém com tanto bom gosto e tanta capacidade para manter sua obra atual e, ao mesmo tempo, conectada com formatos e padrões forjados no passado. Ferry conseguiu estabelecer parâmetros musicais desde os anos 1970, quando esteve à frente de Roxy Music, uma das formações mais inventivas do Rock em todos os tempos temporais. O último trabalho da banda, Avalon, lançado no distante ano de 1982, serviu para que Ferry cristalizasse seu approach sonoro e o eternizasse. Um híbrido de Funk lento e/ou Rock sinuoso, com doses elegantes de música eletrônica e instrumentais que se dobram continuamente, uns sobre os outros, fornecendo o painel para que a voz sussurrada deste dândi cantor venha costurar pontas e aparar arestas. É assim há tempos, continua do mesmo jeito e, acredite, Ferry é o topo da modernidade musical, estando num nível semelhante a seu contemporâneo David Bowie, o Camaleão, o homem que não envelhece.

Ferry dá mais um olé na produção Pop Rock atual com este Avonmore. É mais um trabalho seu que vem recheado de participações especiais, de Nile Rodgers a Flea (Red Hot Chili Peppers), de Johnny Marr a Ronnie Spector, de Todd Terje a Marcus Miller, mantendo o clima de desfile de modas contínuo ao longo do disco, que entrega dez faixas, oito autorais e duas covers bem ao estilo de Ferry, que encerram o disco: Send In The Clowns, canção de Stephen Soundheim, clássico da Broadway e pomposa por excelência, surge numa abordagem totalmente pessoal, sibilante e envolta por instrumental que mescla a massa sonora habitual de Ferry com um arranjo de cordas sutil e flutuante, arranjado por ele mesmo e Colin Good. Além desta, há uma adorável releitura para um sucesso de Robert Palmer – acusado de ser uma espécie de sub-Ferry por toda sua carreira – produzida pelo norueguês Todd Terje, Johnny And Mary. O que antes era uma canção semi-New Wave, cheia de teclados saltitantes, tornou-se uma terrível saudação à solidão e aos espaços vazios que encontramos em nossas vidas de quando em quando, tudo em forma de instrumental esparso e em câmera lenta, fruto da atuação de Terje sobre o próprio conceito original da canção. Coisa muito fina.

O restante de Avonmore é de dar gosto. Loop De Li é a faixa de abertura, cheia de ruídos ambientes, guitarras serpenteando aqui e ali, percussão multiétnica, baixo espalhado e andamento que evoca o suprasumo da admiração que ingleses podem ter pela sonoridade negra americana. É o caldo original que criou toda uma geração de bandas branquelas britânicas, de Duran Duran a Kasabian. Midnight Train alia os malabarismos instrumentais guitarrísticos urdidos por Rodgers e Marr, chegando às vozes dobradas de Ferry, sempre a ponto de evanescer no horizonte, sempre a ponto de suspirar no final de cada verso. Soldier Of Fortune é mais linear, porém com desempenho sofrido de Bryan nos vocais e andamento mais próximo de uma canção Pop usual. Driving Wild é mais moderninha, usando até pequenos scratches em seu instrumental, trazendo o próprio Ferry nos teclados. Special Kind Of Guy é cheia de acenos à produção que Bryan conseguiu em seu álbum de 1985, Boys And Girls, espécie de confirmação de seu padrão sonoro habitual, sendo seu primeiro trabalho após a desmobilização de Roxy Music. O clima é o mesmo, guitarras pairando sobre percussão, teclados e um todo inebriante.

A canção título é uma interessante incursão de nosso herói no terreno da música para as pistas de dança, num resultado que é, ao mesmo tempo, devedor da Disco Music setentista e das trilhas sonoras das boates contemporâneas, tudo ao mesmo tempo, sem permitir ao ouvinte uma noção exata de onde começam e terminam sonoridades. Lost chega bryanferryzando da maneira mais clássica, ou seja, numa elegantérrima balada aveludada, abrindo espaço para mais uma canção classuda e feita para dançar em espaços fechados, One Night Stand, cheia dos habituais backing vocals femininos, outra marca d’água estética do cantor/compositor.

Avonmore é mais um álbum com a assinatura deste estilista da música, sujeito acima de qualquer suspeita. Evoca uma crítica de tempos idos, escrita na revista Bizz, quando algum resenhista saudava a chegada de Bête Noire, um álbum de Ferry lançado em 1987, dizendo que “há anos mais mágicos do que outros, os que assistem a um lançamento de um álbum de Bryan Ferry”. Pois bem, podemos endossar estas sábias palavras plenamente.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.