Resenhas

Burial – Truant/Rough Sleeper

Produtor inglês de Dubstep exagera no experimentalismo e libera um EP que mais parece trilha sonora de um longa-metragem

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Ano: 2012
Selo: Hyperdub
# Faixas: 2
Estilos: Dubstep, Chillwave, Experimental
Duração: 25:22
Nota: 3.5
Produção: Burial

Pelo que parece, a ansiedade não deixa Burial dar continuidade ao seu LP de 2007, Untrue, lançando somente pequenos pedaços de suas produções. Dessa vez, o produtor inglês optou por fazer tudo diferente. Depois de um ano do lançamento de seu Street Halo e meses de Kindred, lançou **Truant / Rough Sleeper, levando o nome das únicas duas faixas presentes na obra. O grande diferencial é que estamos falando de mais de 25 minutos de música.

O que tudo indica é que o tempo de trabalho com Flying Lotus deixou muitas heranças. Aqui as faixas são longas, carregadas de uma densidade sem igual, porém esquematizadas de um jeito inovador. Bevan se distancia do 2-step usual e convida seus ouvintes a viajarem no experimentalismo em que mergulhou. Cada faixa tem mais de dez minutos e conta com pequenos blocos de pequenas músicas. É como se Burial estivesse responsável pela trilha sonora de um filme e construísse pequenas sensações de acordo com cada cena, como se fosse um longa feito de vários curtas diferentes e distantes. O corte usual e abrupto de algumas produções indica gritos e até um fade out. É passada uma agonia única, uma densidade e intensidade composta por sintetizadores arrastados, sussurros e samples obscuros.

Truant é como se fosse o lado escuro de um CD que também tem lado B. É impossível não lembrar da forte influência do Massive Attack, que vangloriou por tempos até lançar uma compilação de remixes do projeto. O downbeat é 4/4 e faz a atmosfera solitária e vazia pra completar uma incoerência com o vocal “I fell in love with you”. A nuvem de synths ajuda nos chocalhos e na percussão, justamente com os ruídos, gemidos e todo experimentalismo exacerbado que aqui casa tão bem.

Rough Sleeper já começa esperançosa e dando um ar mais leve à produção. O fôlego se recupera com o vocal soul claro de início ilustrando os synths arrastados e a percussão ritmada. O 4/4 se mantém e há insersão de órgãos e saxofone em momentos específicos, trazendo bem o cenário nublado de fim de tarde que o gênero implica. Aqui se tem a impressão de uma maior coerência entre as trilhas, apesar das quedas se manterem. Baixo e bateria são mais presentes e dão o suporte ideal para um vocal distorcido em falsete, lembrando bastante o que James Blake fez em 2011. A segunda metade da faixa já soa como uma rendenção, como se as nuvens carregadas passassem e o Sol fosse entrando aos poucos. Tudo graças ao piano e solos curtos de saxofone que se integram às raízes de Dubstep.

A ideia da compilação em poucas faixas funciona quando se quer provar seu recente apego às trilhas longas. Truant / Rough Sleeper não é seu maior lançamento, a quebra abrupta das melodias e seus fragmentos dariam certo em cenas, mas deixa a desejar como disco. Apesar disso, é um trabalho inédito, tanto em lançamento quanto em sua proposta. Todos os “curtas” são bem produzidos e passam uma mensagem individual, invocam uma sensação única. São quase 26 minutos de sinestesia, uma viagem interior que consegue resgatar qualquer experiência e te transportar para um outro universo: O universo de Burial. Agora é só aguardar pra ver se o filme inteiro estreia neste ano.

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Autor:

Publicitário que não sabe o que consome mais: música, jornalismo ou Burger King