Resenhas

C. Tangana – El Madrileño

Novo disco do artista espanhol coloca variadas referências da música latina em primeiro plano e, com colaborações ilustres, celebra o passado e o presente

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Ano: 2021
Selo: Sony Spain
# Faixas: 14
Estilos: R&B, Experimental, Ambient
Duração: 42’
Produção: C. Tangana, Víctor Martínez, Alizzz, Nineteen85, Niño De Elche, Raül Refree, Federico Vindver e Rafael Arcaute

Apesar de sempre estar presente de uma maneira ou outra no Pop mundial, o espaço que a música Latina tem ocupado no cenário atual já vai muito além de um caráter “acessório”. Seja no Reggaeton de J. Balvin, no flerte com a música colombiana de Kali Uchis, ou no suingue da Cumbia de Nathy Peluso, o fato é que os temperos latinos invadiram o imaginário Pop com uma versatilidade transformadora. Talvez por isso tenha sido tão natural o crescimento de sua popularidade, já que os ritmos se combinam a diferentes linguagens sob formas cada vez mais inventivas e fusionadas a outros gêneros, como Hip Hop, R&B e Trap. Assim, o grande termo “música Latina” s não faz jus à pluralidade de expressões que podem ser encontradas ao explorarmos as diferentes nuances dessas misturas. É justamente neste ponto que Antón Álvarez Alfaro, mais conhecido pela alcunha de C. Tangana, deseja tocar profundamente com sua música.

Tangana começou a fazer música em meados de 2005, época em que lançou, de forma online, demos de Hip Hop sob o nome de Crema. Desde então, estabeleceu uma zona de conforto clara entre o Rap e o Trap, colhendo influências de Migos e Future. Ao mesmo tempo, a música Latina lhe trazia um calor envolvente impossível de ser subtraído de sua estética e, assim, isso sempre esteve de alguma forma em seus registros. Seu disco de estreia, Ídolo (2017), reservava, entre os graves e batidas do Trap, um toque de Reggaeton aqui, uma melodia mais acentuada ali. Mas, de uma maneira geral, acabavam ofuscadas pela investida em outros gêneros – funcionando mais como um acessório do que propriamente um centro criativo. Agora, a história é outra e, com a rápida expansão das diversas expressões da música Latina, seria C. Tangana entra com mais intensidade nesse universo.

El Madrileño é uma celebração da música Latina. Em seu terceiro disco, o artista volta seus olhos totalmente para gêneros sagrados do continente e faz um movimento contrário ao que era reproduzido até aqui em sua discografia. Apesar de ter nascido em Madrid (o que inspira o título de seu disco), C. Tangana faz questão de entregar ao ouvinte uma experiência abrangente da música Latina, com os diversos intertextos culturais envolvidos nesse sentido. Elementos diversos ocupam um mesmo lugar: Reggaeton, Flamenco, Cumbia, Bossa Nova e até mesmo o Funk Carioca entra na jogada. Nesse sentido, o artista revela sua qualidade de um habilidoso e autêntico cientista, que consegue misturar estas referências de uma forma tão harmoniosa e precisa, que é como se estivesse preparando um experimento delicado. E, de certa forma, El Madrileño é mesmo um experimento. Talvez não no sentido duro de “música experimental”, mas certamente no que tange esta ambição de explorar, minuciosamente, as especificidades da música Latina.

A triunfante “Demasiadas Mujeres” abre o registro repleta de metais, como se estivesse recepcionando um membro da realeza – tamanha a importância que C. Tangana dá ao gênero. “Comerte Entera” coloca o Brasil em um lugar especial no registro, misturando a suavidade da Bossa Nova, pela presença de Toquinho, com a batida do Funk. Um time de mestres do Flamenco e Cumbia – Gispy Kings, Nicolás Reyes e Tonino Baliardo – entoa seus violões em alto e bom som na explosiva e envolvente “Ingobernable”. Omar Apollo empresta sua voz em “Te Olvidaste”, faixa mais suave nos arranjos, mas que traz todo aspecto quente de um Hip Hop Lo-fi. Em “CAMBIA!”, Carin Leon e Adriel Favela contribuem com uma fusão do tom dramático de violões latinos com timbres de sintetizadores ríspidos – quase como uma ópera moderna. Por fim, a colaboração com Andrés Calamaro resulta em “Hong Kong”, Rock mais áspero para além das expressões mais conhecidas do Pop.

El Madrileño não poderia ter sido produzido sem a colaboração de uma série de célebres artistas da música latina. Assim, cada composição tem seu encanto próprio tanto pela visão macro que C. Tangana imprime nas relações entre timbre e arranjos, mas também pela particularidade que cada um destes artistas empresta para compor a dinâmica da obra. São nomes que têm importância para o cenário latino e, de quebra, ocupam um lugar central na história afetiva de C. Tangana, desde sua adolescência. Nada melhor do que celebrar uma mudança sonora relativamente grande com a aprovação (e, de certa forma, benção) dos ídolos de outrora.

(El Madrileño em uma faixa: “Comerte Entera”)

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ARTISTA: C. Tangana

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.