Resenhas

Caetano Veloso – Cê

Investida roqueira do compositor é uma boa representação da dor que o ódio pós-término de relacionamento é capaz de causar

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Ano: 2006
Selo: Universal Music
# Faixas: 12
Estilos: MPB, Rock
Duração: 46'
Produção: Pedro Sá e Moreno Veloso

O começo dos anos 2000 foi bastante calmo para Caetano Veloso. O compositor acabava de sair de uma longa década de flerte com a música baiana, principalmente o Axé/Olodum em seu último disco dos 90, Livro (1997). Após isso, lançou Noites Do Norte (2000), uma ode à poesia de mesmo título de Joaquim Nabuco, um álbum em parceria com o músico Jorge Mautner e uma coletânea de canções americanas, Foreign Sound (2004). Apesar de uma produção constante, o compositor vivia uma espécie de anos sabáticos quando comparados às exaustivas turnês da década passada e a projeção internacional que seu disco ao vivo Prenda Minha obteve. Entretanto, na metade da década, o fim de seu relacionamento com Paula Lavigne marcaria sua vida e carreira em uma relativa mudança de sonoridade, conservando a poesia de sua obra e entregando ao público um dos discos mais aclamados de sua discografia.

é o vigésimo sexto disco do compositor baiano e, por vezes, é referido como seu “disco de rock”, principalmente pela forma como o terno violão de outrora fora substituído por guitarras distorcidas e a percussão Axé anterior revisitada com uma bateria marcante e firme. Entretanto, simplificar este registro a esta máxima se revelou, com o tempo, uma tentativa falha de compreender o que de fato é a verdadeira natureza do LP. 

Pedro Sá, Marcelo Callado e Ricardo Dias Gomes foram os responsáveis por transpor as ideias de Caetano para esta nova dinâmica de banda, ideias estas que, segundo os integrantes, já vinham prontas, demonstrando a constante e certeira direção artística que o baiano sempre teve em seus discos. Este seria o primeiro de três discos (junto com Zii e Zie [2009] e Abraçaço [2012]) conhecidos como a trilogia Cê, e o ponto de partida de uma busca mais ávida pela constante renovação da sonoridade de Caetano Veloso.

O Rock não é um total desconhecido do compositor. Na verdade sua relação com o gênero começa lá na década de 1970, quando seus discos incluíam covers de bandas americanas e inglesas como Beatles, revisitadas à sua forma quase como novas composições. O cover melancólico de “Help” em Jóia (1975) é um ótimo exemplo. Mais tarde, com Velô (1984) os arranjos mais agressivos começaram a ganhar forma dentro do imaginário de Caetano, apesar de tímidos. Mesmo assim, quando os jornais anunciavam que era o seu disco Rock, houve certa surpresa, principalmente pela forma como problematizou a acessibilidade do gênero em seu livro de 1997, Verdade Tropical:

“Quanto a mim, não pode deixar de me soar gozado o uso da expressão ‘de garagem’ para definir um rock selagem […] pois cresci sem automóvel e entre pessoas que não tinham. […] A mera existência de uma garagem em casa teria sido para mim um sinal de vida luxuosa.”

De qualquer forma, veio nesse de turbilhão emocional da separação de Caetano com Paula Lavigne e isso aparece de uma forma ou outra nas temáticas expressas dessas composições. Ao invés de traduzir seus sentimentos e impressões por meio de metáforas complexas e investigáveis, o compositor explicita a crueza do relacionamento, o frio calculismo das relações, a dinâmica das traições e o sexo real sem lhe disfarçar nenhuma particularidade. Esta crueza dos fatos não rouba a poesia desses acontecimentos. Ao contrário. A realidade já é por si só poética e, o que fica evidente em Cê, é como Caetano é um exímio e atento observador, dotado de um olhar minucioso e cronista. Esse despir metafórico da realidade reflete na sonoridade do disco, ou na forma como o Rock de Caetano é construído: sem excessos, com sonoridade ásperas e estridentes e usando o silêncio entre os elementos das composições como um instrumento de igual importância para a formação do produto final. 

A forma como Caetano procura investigar as relações se faz presente em letras instigantes. O árduo momento de encarar a pessoa depois do término é duramente narrado em “Outro”, como “De cara alegre e cruel/Feliz e mau como um pau duro/Acendendo-se no escuro”. A explosão Punk de “Rock” é terreno fértil para destilar o fel (“Você foi mó rata comigo”) a mesmo tempo que empregando a poesia sonora das rimas (“Animais/Metais/Totais/Letais/Eu não dei letra”). Se a célebre “Deusa do Amor” celebra o sentimento de forma grandiosa, a faixa “Deusa Urbana” desse disco é um retrato mais inseguro, cuidadoso com o amor e suas comparações menos óbvias, mas igualmente cruas (“Mucosa roxa, peito cor de rola”).

Uma percussiva e suingada balada envolve a “Musa Híbrida” de Caetano, explicitando a multiplicidade da pessoa desejada (“A malha do teu pêlo/dongo, congo, gê, tupi, batavo, luso, hebreu e mouro”). Em “Homem”, aparece a postura masculina inflexível e orgulhosa que, com ironia, reconhece a impossibilidade e o desejo oculto pelo orgasmo múltiplo (outro exemplo maestria de Caetano em encaixar tantas palavras difíceis em um arranjo rígido). Também “Não Me Arrependo” carrega uma função poética importante no disco: é quando o eu-lírico de Caetano assume sua paixão e seu amor que, apesar do relacionamento em questão ter acabado, não se findaram imediatamente na sequência. A canção ainda revela que “nada nesse mundo vai apagar o desenho que temos aqui”: ou seja, por mais que doa, a história e o passado mantém-se o mesmo, para sempre. Por fim, “O Herói” expande o olhar do casal para um olhar nacional, aplicando a mesma avidez e crítica ao âmbito nacional e construindo uma personagem repleta de sátira e paradoxo. Personagem esta que, mesmo após 13 anos do disco, permanece atual, principalmente na atual conjuntura política (“A separação nítida entre as raças/Um olho na bíblia, outro na pistola”).

não é um disco Rock de Caetano, é “um disco de Caetano” como qualquer outro e, por isso, conserva para si a imprevisibilidade de seu olhar. Caetano faz gigante um detalhe que não reparamos, e talvez o Rock (feito à sua forma) tenha sido a melhor forma de denunciar aquilo que o compositor vê e percebe. É talvez a parte mais significativa da trilogia que se iniciou aí, pois marca um início próspero de novos direcionamentos (não-rígidos, é claro, uma vez que também puderam ser desconstruídos nos próximos discos). Assim, Caetano nos entrega em um ápice criativo que peitou qualquer dúvida na época de seu potencial artístico, colocando-se como um marco decisivo em sua discografia. Um disco sobre as incongruências de um amor não resolvido. Sobre o frescor do ódio pós-término e a indissociável dor que esse excesso causa.

(em uma faixa: “Homem”)

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MARCADORES: MPB, Rock

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.