Resenhas

Caetano Veloso – Meu Coco

No primeiro álbum de inéditas em nove anos, Caetano pede dias de outras cores e lembra que a cultura brasileira é nossa salvação

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Ano: 2021
Selo: Uns Produções / Sony Music
# Faixas: 12
Estilos: MPB, Tropicália
Duração: 43’
Produção: Caetano Veloso, Lucas Nunes

Caetano Veloso sempre acreditou em um Brasil místico. Um país de diversos deuses, que tem, na sua cultura, na sua história e na sua música, não só força para encantar o mundo como para salvar a si e aos seus das próprias trevas. Não é à toa que essa pauta, tão presente no início de carreira, durante a ditadura militar, e na redemocratização, volte em Meu Coco, primeiro disco de inéditas em quase uma década, lançado no Brasil de 2021.

A faixa-título abre o disco com fôlego cirurgicamente hesitante e em meio a metais, batuques e cordas, Caetano faz um panorama dos nossos brasis: o país multirracial (“Somos mulatos híbridos e mamelucos; E muito mais cafusos do que tudo mais”) e plurirreligioso (“Católicos de axé e neopetencostais”) para avisar, sem meandros, que é uma “nação grande demais para que alguém engula”.

Com texto afiado, ele mostra que estamos todos sob a mesma mistura, “únicos, vários, iguais”, embora muitas vezes encaremos países tão diferentes. O que nos une e nos salva? Nossa cultura e nossa música, na segunda vez seguida em que ele abre um disco falando do conterrâneo João Gilberto.

O álbum é pautado pelas referências musicais diretas, seja da sua geração, seja da anterior. Em “GilGal”, ele cita, sob batuque de candomblé, de Pinxinguinha a Djavan, de Jorge Veiga à banda Tincoãs, que lhe ensinaram “o sentido do som”. Seja das novas safras, como na provocadora “Sem Samba Não Dá”. Como homenagem, presta respeito à música popular brasileira de hoje, do funk de MC Cabelinho e DJ Gabriel do Borel ao Rap de Djonga, o Pop de Duda Beat, o Axé de Leo Santana e o Sertanejo de Marília Mendonça e Maiara e Maraísa, mas, avisa, no fim, animado ao olhar o Cristo Redentor, que, sem Samba, não dá.

Essas citações nominais, comuns na sua obra e presentes em quase todas as músicas do disco, não estão ali por acaso. Meu Coco, como um todo, é uma mistura de ode e alerta. O país místico e poderoso, em que é preciso ficar sempre atento. Ainda assim, mesmo em meio a tanta tragédia, fazemos o mundo feliz com Naras, Bethânias e Elis.

Aos 79 anos, Caetano não deixa de olhar para si. Em “Autoacalanto”, imita ao violão o canto do neto mais novo, Benjamin, nascido em maio, e, como um bom vovô, dá conselhos às gerações mais jovens, em “Enzo Gabriel”.Em referência aos nomes de recém-nascidos mais populares do país nos últimos anos, ele  pergunta aos Enzos Gabrieis qual será o papel deles na salvação do mundo, oferece a benção e dá conselhos: “Sei que a luz é sutil; Mas já verás o que é nasceres no Brasil”.Enzo Gabriel, um “menino guenzo”, “gigante negro de olho azul”, ianomâmi ou luso, é tão diverso quanto é o povo brasileiro, como sempre procurou abordar Caetano. Esta é a temática principal de “Pardo”, composto para a cantora Céu (APKÁ!, 2019), aparece também em “Meu Coco” e dá a base de “Cobre” (“Tua pele é o cobreado; Da Bahia de nós dois”), a música do disco em referência à terra natal.

De origem em origem retoma até Portugal, no fado “Você-Você”, talvez a música mais bonita do disco, cantada com Carminho. “Eu cá nesta AmericÁfrica; Vivo entre miséria e mágica; Não sei dizer o que valho”, diz ele. “Tu és você, sou você; Eu e tu, você e ela”, responde a lusitana. Na relação entre os dois países, uma música de amor, há celebração e, também, lembrança dos povos massacrados (“Peri, Ceci, Ganga Zumba”).

Aos 79 anos, Caetano segue, também, olhando para o mundo. No single  de guitarras minimalistas “Anjos Tronchos”, reflete sobre as redes sociais, o meio digital e as novas formas de produzir música, “sem pele, tela a tela”. Ele aponta para os “anjos já mi ou bi ou trilionários”, que não “comandam só seus mi, bi, trilhões” como acabam, também, influenciando no mundo atual, da Primavera Árabe aos “palhaços líderes” que “brotaram macabros” (influência da leitura do filósofo marxista Domênico Losurdo?). Caetano olha para esse novo mundo, em que Billie Eilish “faz tudo do quarto com o irmão” e “há poemas como jamais”, de forma atenta e crítica, mas nunca assustada. “E eu vou, por que não?; Eu vou, por que não? Eu vou”, ele canta, de cabeça levantada – em referência a 1968, mas invocando o triângulo em meio às guitarras, a origem em meio ao novo.

A face política se escancara, por fim, em “Não Vou Deixar”, que chega a engatar a levada do Funk carioca. É exatamente por meio das belezas e da força deste país que o compositor aponta o dedo e diz que não deixará ninguém “esculachar a nossa história”. “Não vou deixar que se desminta; A nossa gana, a nossa fama de bacana”, diz ele, lembrando que foi muito amor, muita luta, muito gozo, muita dor е muita lida para chegarmos onde chegamos. Ele não vai deixar porque sabe cantar e outros sabem mais, muito mais. Nossa música é nossa redenção. No desenrolar, Meu Coco se mostra tanto sobre Brasil quanto sobre música brasileira, mas, em especial, sobre como é esta cultura e seus sons geniais que, mais uma vez, nos salvam e nos salvarão dessas trevas – nada mais.

“Noite de Cristal”, composta no fim dos 1980 sob o sol da Constituinte e gravada pela irmã Maria Bethânia em Maria (1988), fecha o disco com a mensagem clara. Dividida entre um típico violão Caetano, sobreposto, depois, pelo batuque do Olodum, ele pede: “Dias de outras cores; Alegrias para mim; Pro meu amor; E meus amores”. A que depender dele e da nossa cultura, esses dias hão de chegar.

(Meu Coco em uma faixa: “Anjos Tronchos”)

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