Resenhas

Caetano Veloso – Transa

Quase 50 anos depois, Transa segue como um dos pontos mais altos da discografia de Caetano – para muitos, o mais alto – e o exemplo mais refinado da ampliação da proposta tropicalista

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Ano: 1972
Selo: Philips
# Faixas: 7
Estilos: Tropicalismo, MPB, Rock
Duração: 37'
Produção: Caetano Veloso

Maria Bethânia, a irmã mais nova, conseguiu permissão da Ditadura Militar para que o exilado Caetano Veloso visitasse a Bahia em janeiro de 1971, para participar da festa de 40 anos de casamento dos pais. Na volta a Londres, o ânimo da rápida passagem em casa se aliou às tristezas, ao abatimento e à mágoa de um artista expulso de seu país. E, de forma semelhante, a música brasileira – de antes, durante e depois da Tropicália – se combinou à efervescência do Rock britânico das décadas de 1960 e 1970. O resultado desses conchavos criativos e da injeção de energia baiana na melancolia londrina é o magistral Transa (1972), lançado um ano depois da visita de Caetano ao Brasil e seu último álbum gravado em Londres.

Caetano já havia se aventurado com segurança pelo inglês nos dois discos homônimos anteriores, especialmente em faixas como “London, London” e “Lost In The Paradise”, mas, em Transa, as possibilidades sonoras da língua foram besuntadas aos moldes tropicalistas com a precisão mais arrebatadora de sua discografia. “You Don’t Know Me”, faixa de abertura, mostra o baiano encarnando a esfinge indecifrável e soa como provocação de chegada a um local inóspito e condescendente com forasteiros. A citação dos versos de “Saudosismo” (canção composta por Caetano em 1968), na doce voz de Gal Costa, se junta a mais três homenagens brasileiras espalhadas pela letra: “Reza”, de Edu Lobo, “Maria Moita”, de Carlos Lyra e Vinicius de Moraes (gravada por Nara Leão) e, a última, “Hora do Adeus”, baião de Luiz Gonzaga. A mistura entre versos em inglês e português, e a proposta de acomodar raízes brasileiras à luz do Caetano londrino-exilado-distante-triste, além de pulsar a antropofagia tropicalista, serve como cartão de visita perfeito para o que Transa entrega a seguir.

Considerada sua melhor música em inglês pelo próprio Caetano, “Nine Out Of Ten” é a provável primeira incursão brasileira pelos compassos e andamentos do Reggae, gênero pelo qual ele se apaixonou durante as andanças em Portobello Road – travessia, inclusive, citada na letra, que hesita entre pessimismo e esperança e conclui que, se 9 de 10 filmes te fazem chorar, quer dizer que você está vivo, vivíssimo. Destaque também para a exuberante guitarra de Jards Macalé durante toda a faixa e que tem seu ápice no solo anunciado por Caetano com o clássico “Bora, Macau!”

“Triste Bahia”, fechando o Lado A do vinil, pinça versos do poema homônimo do também baiano Gregório de Matos – o apelidado Boca do Inferno – em uma das canções mais bonitas e melancólicas do repertório. As saudades de casa, a predação maquiada de progresso, a desistência, a aniquilação dos sonhos, as diferentes vozes baianas, vindas de diferentes tempos. Tudo isso é sentido e cantado na voz de Caetano durante quase 10 minutos, que também apresentam trechos de cantigas entoadas no Recôncavo baiano. Entre as melhores de toda obra de Caetano, é uma gravação impecável, que, ao mesmo tempo, abarca regionalismo atemporal e psicodelia vanguardista, beleza e tristeza. 

Dizendo que acordou de manhã e cantou uma “velha canção dos Beatles” (provavelmente “The Long And Winding Road”), Caetano novamente mescla inglês e português em “It’s A Long Way” e inclui trechos de “Consolação”, de Baden Powell e Vinicius de Moraes, “Sôdade, Meu Bem, Sôdade”, de Zé do Norte, “A Lenda do Abaeté”, de Dorival Caymmi, e “Água Com Areia”, de Jair Amorim e Jacobina. Ao longo de mais de seis minutos, a canção parece reverberar o longo e tortuoso caminho pelo qual o Brasil e o próprio Caetano obrigatoriamente teriam de passar, além de soar como lamento de saudade da terra natal. Saudade que vem de um amor que, segundo Caetano, “está mais firme do que quando começou”. 

As desconstruções, empréstimos e reconfigurações da cultura brasileira são mais uma vez executadas com maestria na releitura de “Mora Na Filosofia”. Originalmente, a canção de Monsueto Menezes é um enérgico samba de morro carioca, mas Caetano a reedita em uma balada soturna influenciada pelo Rock inglês, trazendo mais um arranjo primoroso de Macalé. O disco fecha com a experimental “Neolithic Man” – que contém os versos “Que tem vovó/Pelanca Só”, canto do pássaro sábia-da-mata, comum na Bahia, transformado em palavras – seguida de “Nostalgia”, breve homenagem ao Blues. 

Quase 50 anos depois, Transa segue como um dos pontos mais altos da discografia de Caetano – para muitos, o mais alto – e o exemplo mais refinado da ampliação da proposta tropicalista. A criatividade e o apuro estético se combinam à vulnerabilidade, à saudade de casa e à melancolia, mas encontram lugar seguro na singularidade de um artista que, por si só, entre ambiguidades e dialéticas, sintetiza um tanto do que é o Brasil. À época, o distante Brasil. 

(Transa em uma música: “You Don’t Know Me”)

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MARCADORES: MPB, Rock, Tropicália