Resenhas

Cage the Elephant – Tell Me I’m Pretty

Novo álbum do grupo americano faz incursão na psicodelia sessentista clássica

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Ano: 2015
Selo: Columbia
# Faixas: 10
Estilos: Rock Alternativo, Rock Psicodélico, Rock
Duração: 38:11
Nota: 3.5
Produção: Dan Auerbach

Admito que nunca dei muita bola para Cage The Elephant. Também confesso que nunca percebi em seu som a diversidade de influências que a crítica musical internacional jura ouvir, indo de Nirvana a Kasabian, tudo ao mesmo tempo agora, mesmo que não dê para ignorar o fato de que o grupo do estado americano do Kentucky seja mais conhecido na Inglaterra que em seu torrão natal, algo, digamos sintomático. Uma audição deste quarto trabalho dos sujeitos serviu para que eu revisse alguns conceitos. Esqueçam os álbuns anteriores, este Tell Me I’m Pretty é bem bacana.

É mais uma criação com a marca de Dan Auerbach na produção, algo que faz a diferença hoje em dia. Sei bem que a abordagem empoeirada e vintage que o sujeito promove pode fazer com que tudo soe exatamente como sua banda, The Black Keys, mas há momentos em que essa visão retrô aceita pelo presente como novidade é exatamente do que um artista pode precisar. É o caso de Cage The Elephant e de sua sonoridade outrora chatinha. Com Auerbach na pilotagem do estúdio, a banda ganhou em malandragem e malemolência, adentrando com peito aberto e cabeça erguida os sacrossantos jardins suspensos da Psicodelia estilizada boca de sino patchouli. Ou algo assim. Dan conferiu um banho de brechó na estética da banda, fazendo com que ela soe ora como um Primal Scream júnior – que é um grande elogio, veja -, ora como um dedicado aprendiz de formações sessentistas obscuras garageiras que nunca fizeram sucesso, mas que mandaram bem aqui e ali. E com o bônus de jamais soar retrô ou nostálgico em qualquer momento do álbum.

Se você quiser uma prova contundente e imediata do que estou falando, pode ir direto à sexta faixa, Trouble, que tem uma chapação palpável, mas que deriva uma balada graciosa de DNA stoniano muito difícil de se fazer hoje em dia. Lufadas de bateria e guitarra compõem o cenário com precisão. Aliás, as seis cordas são decisivas ao longo das dez faixas. Elas fazem a introdução em Cry Baby, com timbres alternados e boa dose de saturação – marca registrada de Auerbach – elementos que fazem muito bem por aqui. O single Mess Around é um levanta-defunto com menos de três minutos, com sonoridade esquelética intencional, mas que soa eficiente no refrão gritado e nas variações de teclados colocadas em pontos estratégicos. Sweetie Little Jean tem mais Psicodelia estilizada, parecendo uma menina de 17 anos que entra num brechó e sai vestida com roupas dos anos 1960, com frescor e referência em doses iguais, uma transformando a outra.

Too Late To Say é mais lenta, tem levada empoeirada e dolente, quase Blues, quase resmungada na cabeceira da cama quando olhamos para o relógio e vemos que a hora do compromisso ficou muito lá para trás. Cold Cold Cold é outra canção com genética sessentista reempacotada e lembrando alguma balada obscura de The Rolling Stones – outro senhor elogio, gente. How Are You True é a melhor canção do álbum, uma balada voz/violão que vai sendo encorpada aos poucos, com órgão, guitarras, baixo e bateria, como se fossem partes de um enigma que se resolve com o tempo. That’s Right é um convite ao baile numa festa careta qualquer, mas com um DJ espirituoso e ases na manga, que resolve salvar a noite com uma única canção. Punchin’ Bag é climática e crocante, abrindo caminho para a improvável Portuguese Knife Fight, com mais guitarrama psicodélica, vocais doentios, chapação por toda parte e uma inegável vontade de ser a banda de Mick Jagger e Keith Richards.

Cage The Elephant, poderíamos dizer, renasceu com este novo álbum. Tem diversão garantida por aqui a ponto de satisfazer várias audições com fones de ouvido, combustível para dançar com sua cara-metade em várias situações, além de canções lentas e doidas para sonorizar sua ressaca ou preguiça (ou ambos?) em outras tantas situações. É como você estar sob um sol de quarenta graus e encontrar uma piscina com água fresca, gente interessante tomando drinks coloridos na borda e ser convidado para ficar por lá. Não resista.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.