Resenhas

Calexico – Edge Of The Sun

Novo álbum da banda é arejado sem abrir mão das influências tradicionais

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Ano: 2015
Selo: Anti
# Faixas: 12
Estilos: Rock, Rock Alternativo, Alt-Country
Duração: 40:26
Nota: 4.0
Produção: John Convertino e Craig Schumacher

Na fronteira entre México e Estados Unidos, há uma cidadezinha chamada Calexico. Foi esse o nome que John Convertino e Joey Burns escolheram para batizar sua banda em fins dos anos 1990, justamente por sintetizar de forma tão brilhante a mistureba ancestral de influências culturais, étnicas e sociais, e, ao mesmo tempo, enfatizar os contrastes abissais entre os dois países. De tempos em tempos, os sujeitos e mais um número sempre grande de colaboradores, integrantes, participantes e agregados orbitantes, se reúnem para compor e gravar. O índice de acerto dessa galera é sempre alto, com momentos de extremo brilho aqui e ali, com a banda procurando dar sua interpretação do que gosto de chamar de “sons da América mitológica”, especialmente sobre a cultura que se criou quando os habitantes da distante Costa Leste decidiram que a corrida em direção ao Oeste era inevitável, necessária e digna de qualquer esforço, mesmo que exterminar índios, entrar em guerra com países vizinhos (adivinhem qual) e anexar territórios fossem ações toleráveis dentro desta lógica. Deu no que deu, nos Estados Unidos como o conhecemos.

É possível encontrar toda a crônica desse movimento na crônica de costumes em forma de música que Calexico oferece. Este novíssimo trabalho não foge à regra e joga alguma luz sobre esse sudoeste americano tão discreto e desconhecido. Concebido numa espécie de viagem de férias ao distrito de Coyacán, na capital mexicana, Edge Of The Sun é dos trabalhos mais arejados e iluminados da banda. Convertino e Burns gostam de recriar temas empoeirados mas, de tempos em tempos, se permitem algumas sonoridades de piquenique ensolarado, o que, em termos de Calexico, significa uma profusão de adoráveis criaturas híbridas e meio tortas, mas bem intencionadas e autênticas o tempo todo. Isso inclui uma saudável mania de enfiar ritmos latinos sempre que possível, sempre na lógica dos contrastes e das fusões culturais.

Edge Of The Light tem participações especialíssimas: os vocais celestiais de Neko Case estão por toda parte; a graciosa violinista Gaby Moreno empresta seu talento ao caldo instrumental, enquanto Ben Bridwell (Band Of Horses) e Sam Bean (Iron And Wine) comparecem compondo e tocando junto com os cérebros principais. O resultado arejado surge logo de cara, na primeira canção, Falling From The Sky, com tecladinhos gelados em contraste direto com levada arborizada de domingo de manhã que a banda ergue naturalmente. O refrão explode em vozes e metais mariachis, naturalmente colocados na maçaroca sônica. Tapping On The Line é outra modalidade de felicidade musical, com vocais sutis e levada eletroacústica prestes a tomar a canção de assalto, algo que acontece apenas quando a voz de Neko surge vinda das montanhas, graciosamente. O total flex de Cumbia de Donde une dança de fim de festa com canção ancestral de churrascada mexicana nos subúrbios menos visados de Tijuana ou outro buraco quente qualquer.

Coyacán evoca as trilhas sonoras de Enio Morricone para os clássicos filmes de faroeste italiano da locadora da esquina, enquanto Beneath The City Of Dreams pega emprestado guitarras de Surf Music desconexas e as encaixa numa levada que poderia ser prima do Reggae. Quando menos se espera, o lirismo surge em sutilezas no arranjo valsante de Woodshed Waltz ou no tecladinho preguiçoso de Moon Never Shines, dando uma coloração sépia de fim de tarde.

Esse novo trabalho de Calexico sintetiza com maestria sua proposta musical, além de assegurar a longevidade da banda, que já ultrapassou os limites da música tradicional americana nesses 18 anos de carreira, abrindo um espaço bem definido para ocupar e seguir em frente. É uma cara interessante e nova de um país que é bem mais desigual e estranho do que pensamos.

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BOM PARA QUEM OUVE: Neko Case, Johnny Cash, Wilco
ARTISTA: Calexico

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.