Resenhas

Câmera – Mountain Tops

Quarteto mineiro faz ótimo disco de estreia e mostra que veio

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Ano: 2014
Selo: Balaclava Records
# Faixas: 12
Estilos: Indie Rock, Rock Alternativo, Post-Rock
Duração: 52:17
Nota: 4.0
Produção: Câmera, Euler Teixeira e Gustavo Simoni
SoundCloud: /tracks/166244829

Câmera ronda no underground brasileiro já há algum tempo, desde o lançamento dos EPs Invisible Houses e Not Tourist, ambos de 2011, para ser mais exato. Desde aquela época, o quarteto belo-horizontino tem construído sua sonoridade a partir do encontro de dois pilares da música Indie nos anos 90, o Rock Alternativo (de bandas como Pavement, Sonic Youth e Dinosaur Jr.) e o Post-Rock (de nomes como Mogwai, Slint e Explosions In The Sky). Dizer isso é chover no molhado, eu sei, porém, necessário para destacar que o grupo mineiro sabe como nenhum outro colher em cada um desses extremos da música noventista inspirações para criar algo muito próprio, algo contemporâneo, na mesma medida que é “retrô”.

Três anos após esse primeiro encontro com a banda, surge o primeiro registro completo do grupo, Mountain Tops, que documenta de certa forma todo esse período – mais especificamente, seus 18 meses de gestação. Em um ano e meio, muita coisa pode mudar, seja de forma amena ou brusca, e essas mudanças estão presentes de alguma forma nesta obra. E basta comparar faixas como a psicodélica e Pop Lost Cause, I Surrender! com a amena Astronaut Adrift, ou ainda com a viagem instrumental de Deasolation Peak e ficará bem clara a flutuação de humores durante todo o processo de concepção do disco – o que o deixa ainda mais relacionável ao ouvinte, assim como sonoramente interessante e variado.

A complexidade do álbum surge na mesma medida em que ele se apresenta simples (e muito convidativo) ao ouvinte. Melodias envolventes, um vocal gostoso e letras com as quais conseguimos nos relacionar muito facilmente (talvez por uma questão de identificação, por já termos passado por fases semelhantes) estão todas envoltas por arranjos muito bem trabalhados e uma produção impecável. Com ótimos ingredientes e uma “receita caseira”, o grupo não precisa recorrer a qualquer fórmula pré-estabelecida para criar uma obra bem-sucedida. E é aí que reside sua beleza e originalidade.

Longe dos exageros barulhentos do Rock Alternativo ou dos devaneios instrumentais do virtuoso Post-Rock, o quarteto se pauta pela moderação, pela parcimônia, por pinçar o senso melódico e acessibilidade de um e o fator atmosférico do outro, sempre promovendo um encontro muito climático e rico em detalhes entre as duas vertentes do Rock. Basta ouvir faixas como Hypnosis ou Till Life Do Us Apart para saber do que estou falando. São duas composições sensíveis e que evoluem lentamente, que parecem crescer aos poucos em meio às melodias gentis das guitarras (que em alguns momentos buscam na agressividade do Noise sua válvula de escape), as linhas sempre precisas de baixo e os vocais sempre serenos.

Nostálgico (no melhor dos sentidos), triste, melancólico, sereno, romântico, apaixonado (e apaixonante). Mountain Tops pode assumir todos esses predicados para si, mas depende do ouvinte a tarefa de adjetivá-lo conforme seu próprio estado de espírito. A banda conseguiu traduzir através de sua música sentimentos universais, que podem ser consumidos das mais diversas maneiras e que a cada nova audição revela um novo sentimento, que a cada segunda avaliação mostra um mais um pequeno detalhe, uma singularidade que só pode ser notada por você, que te desperta para um novo vislumbre do horizonte do som montanhoso dos mineiros.

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BOM PARA QUEM OUVE: Pavement, DIIV, Built to Spill
ARTISTA: Câmera

Autor:

Apaixonado por música e entusiasta no mundo dos podcasts