Resenhas

Caribou – Suddenly

Com a produção beneficiando a narrativa, Dan Snaith conta (e canta) sobre suas incertezas

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Ano: 2020
Selo: Merge Records
# Faixas: 12
Estilos: Eletrônica, Synthpop, Ambient
Duração: 43'
Produção: Dan Snaith

Quando pensamos em discos autorais assinados por produtores, o aspecto técnico costuma ser levado mais em conta. Temos um olhar preponderante para a escolha de timbres, a técnica empregada na construção das faixas, possíveis relações musicais entre discos passados, e por aí vai. Com o londrino Dan Snaith, conhecido pelo seu principal projeto, Caribou, as coisas costumavam andar nessa linha. Cada disco de sua carreira propõe diferentes abordagens de exploração sonora, e trabalhos como Swim (2010) e Our Love (2014) ganharam destaque principalmente pela maneira com que Snaith tece texturas tão interessantes a partir de elementos relativamente simples.

A complexidade artística é a justificativa para o considerável tempo entre seus lançamentos, que priorizam sempre um acabamento refinado. Ainda que isso o faça recorrer a um precioso e rigoroso olhar para sua produção. Entretanto, seis anos após seu último disco, Caribou traz à tona uma nova expressão de seu trabalho, uma que recua o protagonismo da produção musical, cedendo lugar a uma narrativa, em outros momentos, escondida: a do próprio Dan Snaith.

O título de Suddenly sugere alguns dos diferentes focos que o disco aborda. Neste trabalho, Snaith narra sobre a imprevisibilidade da vida e, mais do que isso, sobre a frágil e falsa noção de conforto e estabilidade, que pode ser interrompida a qualquer instante. Um episódio envolvendo a morte de uma parente foi o estopim para que essa fragilidade ficasse evidente, tirando-o completamente de sua zona de conforto. Assim, a urgência em se expressar sobre o assunto pauta boa parte da ambientação do disco, funcionando como receptáculo de diferentes histórias da família do músico. Por isso, ele é tão cuidadoso ao contar essas narrativas, uma vez que elas não são totalmente suas. É justamente aí que seu talento como produtor o auxilia.

Suddenly é um trabalho que expressa, indiscutivelmente, a identidade construída por Caribou ao longo de sua carreira. A forma como as colagens sonoras são desenvolvidas ainda traz a simplicidade de sempre. Mas, agora, ela aparece como suporte para que ele possa transparecer uma essência mais cativante. O envolvimento é tão intenso que Suddenly mostra esforços genuínos em elevar a voz a uma posição de destaque.

Em entrevista ao The Line Line Of Best Fit, Snaith, que nunca apostou muito em sua habilidade como vocalista e diz sentir inveja desse talento inato, admitiu que foi preciso coragem para soltar a voz – pelo menos, um pouco mais. A proximidade entre a concepção do disco e sua história particular criou a necessidade de que ele próprio fosse o personagem que a narraria. Mesmo que, segundo ele, certas imperfeições técnicas pudessem vir no pacote. E, na verdade, são essas imperfeições que tornam o disco tão introspectivo e sincero.

Dessa forma, ao mesmo tempo em que temos um Caribou familiar, por conta de sua produção musical, é a primeira vez que nos deparamos com a face mais vulnerável do produtor – como se os últimos álbuns fossem um ensaio para um disco mais pessoal. Isso fica claro nos primeiros minutos do repertório, quando “Sister”, uma frágil melodia envolvida por um sintetizador oscilante, aponta os holofotes para nosso narrador. Já “You and I” se volta para um lado mais Synthpop, aos moldes do que o M83 mostrou em meados da década passada.

O recorte agressivo dos vocais de “New Jade”, por sua vez, sugere uma ambientação mais frenética e narra particularmente a história que serviu de estopim para o conceito do disco. “Home” mostra o lado de pesquisador musical, com um sample de Gloria Barnes misturando-se às melodias vocais, e “Like I Loved You” remete a TLC e Destiny’s Child, ao se escorar em arranjos e timbres típicos do R&B noventista. Por fim, “Cloud Song” recorre ao minimalismo analógico dos sintetizadores, encerrando a narrativa.

As incertezas perante as surpresas da vida se refletem em diversos momentos do disco. Caribou entrega mais um trabalho de qualidade inegável, sempre abrilhantado por elementos que levam suas composições a lugares nunca antes visitados. A perplexidade mexe com ele e, por sua vez, o álbum mexe conosco. É um disco tocante em sua imprevisibilidade.

(Suddenly em uma faixa: “Like I Loved You”)

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BOM PARA QUEM OUVE: Caribou

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.