Carne Doce – Tônus

Registro tenso e introspectivo revela grandes características da banda

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Ano: 2018
# Faixas: 10
Estilos: Indie, Pós-MPB
Duração: 41'
Nota: 4.5

Tônus é para Carne Doce a prova da maturidade que a banda adquiriu nos últimos anos para além de sua musicalidade. Se já conhecíamos sua capacidade de criar discos memoráveis (principalmente após Princesa], o que fica desta vez é a perspectiva que o grupo de Goiânia encontrou de vez sua voz, sua mensagem, sua estética. Não que esse conjunto esteja em desalinho com a identidade que já conhecíamos, não mesmo, só que agora tudo parece chegar sob uma perspectiva mais direta, até mesmo mais confiante, o que resulta em um trabalho que consegue falar alto mesmo em volume menor.

Salma Jô traz uma poesia ainda mais adulta à estética meio Indie, meio MPB da banda, com uma amargura contemplativa que dá as caras logo na primeira faixa, Comida Amarga: “Já não sou mais gostosa/Você goza triste em mim/Eu cato as sobras/Dos teus sinais/Eu sou a sobra/Junto com as sobras/Eu não sou mais”. Sua reflexões chegam em tom conclusivo, como alguém que olha para trás e desenvolve o raciocínio sobre o que passou, ao contrário dos discos anteriores, que transmitiam uma urgência maior em seus temas, como respostas e reações ao presente.

Cantando mais baixo e explorando timbres mais graves, Carne Doce trabalha a introspecção ao visitar temas de relações familiares (Irmãs, Ossos), de diálogos sócio-culturais (Tônus, Nova Nova) e até mesmo a metalinguagem (Besta). Em todas essas, o eu-lírico parece observar a passagem do tempo não em seu andamento, mas ao constatar suas consequências em seu íntimo. Isso explica também um certo peso – ou um “pesar” – presente na maior parte das canções, um tom obscuro e ressentido que confere uma coesão muito grande entre as faixas. É por isso também que aquelas um pouco mais diferentes, como Amor Distrai (Durin) e Já Passou, acabam por saltar aos ouvidos e se destacam naturalmente em meio ao repertório.

Tônus, como álbum, é a tensão entre a delicadeza de sua sensibilidade e um baixo pulsante, entre o vocal sussurrado em Ossos e o refrão tão forte de Golpista. Por propor um mergulho tão intenso em sua introspecção, é capaz que Princesa siga como favorito entre o público, mas este terceiro lançamento em sua discografia entra para a história como um momento de grande inspiração e sentimentalidade nas letras e nos arranjos – muito provavelmente, a mesma maneira como Carne Doce será sempre lembrada.

(Tônus em uma música: Brincadeira)

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BOM PARA QUEM OUVE: Luiza Lian, Bruna Mendez, Baleia
ARTISTA: Carne Doce
MARCADORES: Indie, Ouça, Pós-MPB

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.