Resenhas

caroline – caroline 2

Com sarcasmo mais pronunciado, banda inglesa prioriza experimentos e rascunhos – como se o processo de concepção fosse o próprio álbum

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Ano: 2025
Selo: Rough Trade
# Faixas: 8
Estilos: Post-Rock
Duração: 39'
Produção: Casper Hughes, Jasper Llewellyn, Mike O'Malley

Escrevi pela primeira vez sobre a banda inglesa caroline na ocasião de seu álbum de estreia, o ótimo e autointitulado caroline (2022). Na época, chamei a atenção para como a música do grupo se caracteriza por acordes e versos insistentes, como se estivesse emperrada em algum lugar insuperável, com “temas” que crescem em energia, fermentando como algo engarrafado e borbulhante, prestes a explodir.

As paisagens habitadas pela banda estão cheias de água e superfícies reflexivas. Seja no vídeo de “Skydiving onto the library roof“, ou na sessão ao vivo, promovida pelo selo Rough Trade – que coloca a banda dentro de uma piscina vazia, localizada por sua vez dentro de um ginásio abandonado, com ambientes cobertos de vidros espelhados –, a banda dá entender que a sua música acontece como um eco de si mesma.

Agora, a opção pelo nome caroline 2 denota um desejo de continuidade pela mesma linha de pensamento, mas com a dificuldade intrínseca a essa questão: como chegar a um segundo trabalho, evoluindo musicalmente, mas explorando um caminho cujo tema primordial é a repetição?

Nesse sentido, caroline 2 mantém mais ou menos a fórmula de seu antecessor com algumas variações. As letras repetem insistentemente os mesmos três ou quatro versos, mas este crescendo nunca constrói realmente uma estrutura, nem desemboca em nenhuma epifania musical. Os convidados ilustres e os processamentos eletrônicos de voz dão agora um ar menos artesanal e mais contemporâneo à estética da banda. E o “tom de voz”, por assim dizer, está um pouco diferente, uma vez que a ironia desta vez se coloca de outra maneira na atitude do grupo diante do mundo.

caroline 2 aposta em um sarcasmo muito mais pronunciado do que antes. Se antes a banda parecia empolgada com um autêntico sentimento de revolta, de epifania ou, enfim, de política, agora, de certa maneira, cita a si mesma em alguns momentos, quase como piadas internas exclusivas para ouvintes assíduos. Títulos como “song two“, “coldplay cover” e até mesmo a participação de Caroline Polachek, soam todos como deboche, o que desloca um pouco o lugar do ouvinte: antes um confidente, agora um crítico em tempo real.

Existe um vídeo em que atores ingleses repetem e repetem o famoso verso de Hamlet, “ser ou não ser, eis a questão”, acentuando cada um uma palavra diferente da frase, alterando o seu sentido. Quando Shakespeare escreveu o verso no século XVII, tratava-se de uma busca autêntica e filosófica pela essência da condição humana. Agora, repetido à exaustão, é possível escrutiná-lo em busca de novos significados, novos ângulos, novas experiências escondidas para além do óbvio.

E é mais ou menos essa a sensação que ao ouvir caroline 2, uma repetição e uma exploração, e também um esgotamento, que nos fazem ouvir outras nuances musicais antes escondidas. caroline 2 prioriza ideias, texturas, andamentos e, em suma, experimentos, ao invés de produtos mais prováveis e comerciais. Aqui, rascunhos, emendas e processos de trabalho estão visíveis: é como se a banda conseguisse conceber um álbum que está paradoxalmente finalizado em seu próprio processo de concepção.

(caroline 2 em uma faixa: “Total euphoria”)

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ARTISTA: caroline

Autor:

é músico e escreve sobre arte