Resenhas

Cashmere Cat – Wedding Bells

Alternância entre sedução e lisergia destaca o EP, porém peca na relação entre temática e sonoridade

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Ano: 2014
Selo: Warp
# Faixas: 4
Estilos: Neo soul, Eletrônica, Alt--R&B
Nota: 3.0
Produção: Cashmere Cat

Há alguns dias escrevi um artigo em nossa coluna “Fora de Época” sobre o primeiro disco de Crystal Castles e a relação imediata que o som da banda possui com o sentimento negativo da depressão pós drogas. Ano passado, resenhamos um dos discos mais sedutores de 2013, que rendeu uma das poucas notas máximas que demos ao longo da história do site. Estamos falando de Woman, disco mais recente do conjunto Rhye. Agora você deve estar perguntando o que estes discos tem a ver com o novo EP do produtor Magnus August Høiberg, mais conhecido como Cashmere Cat. Por mais distante que as propostas dos discos citados sejam entre si, o EP acaba se mostrando como o filho deste casamento improvável, herdando características de ambas as partes.

Wedding Bells mostra um universo sedutor e psicótico. Alternando entre vocais suaves, instrumentações leves, barulhos psicóticos e uma sensação de tensão, Magnus produziu um registro que, por mais que você esteja em um dos lados dessa balança (sedução X neurose), consegue escutar os elementos que simbolizam o lado oposto. Exemplificando: a segunda faixa Pearls inicia com uma percussão tensa (neurose), mas que também é dançante (sedução). Logo uma voz de mulher (sedução) abre caminho para o refrão, porém a linha vocal é duplicada com uma segunda voz umas duas oitavas abaixo (neurose). E por fim, a linha melódica do “refrão” é feita por xilofones levemente reverberados (sedução), mas que são acompanhados de barulhos que simulam tiques de ponteiros do relógio, frenéticos e constantes.

O registro pode ser considerado um aprimoramento de seu primeiro trabalho, Mirror Maru, de 2012. Enquanto nesse, há uma priorizada pela suavidade e apenas alguns toques de ”drops” mais pesados, no EP atual a coisa fica mais equilibrada. A estrutura é um pouco previsível, mas é interessante notar esta ambivalência de sentimentos durante o percurso das faixas. Há momentos, que essa mistura se assemelha a referências extremamente diferentes do previsto. Em Rice Rain, há momentos em que você jura estar ouvindo algo da carreira das divas Pop de R&B do começo dos anos 2000, mas com um toque mais distópico e lisérgico. Algo como uma Mariah Carrey cheirada. É óbvio que a lisergia aqui chega a ser tão presente como a de Crystal Castles, mas ela é notável o suficiente para você não se sentir tão confortável em meio ao clima suave.

O título do EP chama a atenção, mas é um enigma. Fazendo uma alusão clara às cerimônias de casamento, os nomes das faixas seguem essa linha temática. With Me, simbolizando o afeto do casal seguido do presenteamento de jóias pré casamento (Pearls); depois a própria cerimônia (Wedding Bells) e a costumeira chuva de arroz em Rice Rain. Não sei se a intenção de Magnus é nos remeter ao matrimônio, então a relação música X temática fica confusa. Não que isso seja um demérito, até por ser um EP, mas parece que ficamos incompletos ao não entender a proposta do trabalho (como nosso redator Lucas Repullo disse no nosso programa Buzzers sobre letras de música, “…eu preciso de um manual de instruções para saber exatamente sobre o artista está falando…”). Essa desconexão (ou falta de preocupação) temática acaba colocando a posição de Magnus como músico em cheque, evidenciando mas o aspecto de apenas produtor, em que há muito mais uma preocupação com a música do que com a letra (preocupação esta que deveria ser ambivalente)

Cashmere Cat nos deixa então com essa obra ambígua: há uma evolução do som (sabendo mesclar mais o Pop com elementos pesados), porém o disco peca nesse aspecto de adequar a temática ao som. Talvez seja uma forma de retratar a opinião de Magnus acerca do casamento (confuso e harmonioso), talvez haja uma narrativa em volta dessas quatro faixas e, por fim, talvez sejam apenas nomes de faixas nos quais estamos gastando muito tempo pensando no significado delas, ao invés de escutarmos o disco. De qualquer forma, vale a pena relaxar com as batidas doidas do produtor, porém, sempre alerta para os ataques de neurose e depressão lisérgica.

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.