Resenhas

Cassius – Ibifornia

Dupla francesa vem com disco tropical e californiano, mas peca na originalidade da ideia

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Ano: 2016
Selo: Ed Banger/Warner
# Faixas: 10
Estilos: French House, Pop Alternativo, Eletrônico
Duração: 56:14
Nota: 3.0
Produção: Phillippe Zdar e Boom Box

Cassius sempre me pareceu um primo pobre dos duos eletrônicos franceses da década de 1990. Foi preciso Air e Daft Punk estourarem relativamente, além de Phoenix, para que a dupla formada pelos produtores, DJs e mentes pensantes Phillippe Zdar e Hubert Blanc-Francard, mais conhecido como Boom Box, surgisse para o mundo. Quando isso aconteceu, lá por 1999/2000, parecia que Cassius era mais voltado para a música Eletrônica contemporânea, com poucas tinturas difusas/retrô, como seus conterrâneos. Se isso parecia uma característica naquele tempo, hoje, 17 anos depois de seu disco mais conhecido, o bom 1999 (segundo da carreira), a dupla aparece com um abraço estético ao mesmíssimo clima que Daft Punk cultivou ao longo dos anos 2000 e que chegou ao ápice em 2013, quando soltou seu multiplatinado álbum Random Acess Memory. É tão dedicada essa apropriação de tiques e taques americanos por parte de Cassius que dá um pouco de vergonha alheia, muito pelo fato de ser feito da mesmíssima forma que Daft Punk fez há tão pouco tempo.

Nada contra a cópia disfarçada de influência, mesmo. Mas o que surge aqui é meio constrangedor. O títuloIbifornia ainda tem a impressionante sagacidade malandra de misturar as supostas influências geomusicais dos caras, juntando as palavras “Ibiza” e “Califórnia”, pra aludir a melodias solares, levadas tropicais dançantes e os já manjados drinks coloridos na beira da piscina da Ilha da Fantasia. Pra legitimar esse movimento, foram recrutados vários convidados. O produtor Pharrell Williams (que coincidência, né?), a cantora Cat Power, o vocalista de Portugal, The Man, John Gourley, o vocalista da bandeca One Republic, Ryan Tedder, além de uma interessante associação com o rapper Mike D, um dos Beastie Boys. Mesmo assim, com um time respeitável de gente de várias origens para receber Cassius na orla da praia ideal e idílica, a música fica devendo. E não é pouco.

Não há exatamente canções riuns ao longo do álbum. Elas só são chatas e longas demais. A faixa-título, por exemplo, beira os 9 minutos de duração, com samples de aves tropicais, uma voz cavernosa falando “Ibifornia” em várias velocidades e um baticum sem sal. A intenção é boa, a gente vê o que poderia render, mas o resultado fica aquém. Outro exemplo é Go Up, que tem, ao mesmo tempo, Pharrell e Cat Power, uma combinação meio inusitada, mas que rende algum caldo, ainda que soe como uma sobra das sessões de Random Acess Memory, sobretudo pelo uso das guitarras funky no mesmo estilo que Nile Rodgers usou então. Action é outra faixa que tem Cat nos vocais, duetando com Mike D, que tem produção espertinha personificada no uso inteligente de vocais de apoio e samples de sopros, mas o rap que D entabula é constrangedor.

Há bons momentos, no entanto. Love Parade tem algo de Funk eletrônico do início dos anos 1980 em seu arranjo que funciona bem. Hey You também é simpática, com aura Technopop e vocais saturados, beirando uma Psicodelia segura, de butique. O grande momento, o ponto alto por aqui, é a dobradinha Blue Jean Smile e The Sound Of Love A primeira é uma baladaça eletrônica com vocais de John Gourley, de Portugal The Man. Nela Cassius não tem qualquer vergonha de pegar emprestado clichês dos anos 1980, desde o uso de teclados pasteurizados, bateria fake, vocais de apoio qualquer nota e até versos recitados com voz de travesseiro por Gourley, que assume um papel de Barry White que ele jamais imaginou que poderia fazer enquanto estava com sua banda de origem. A segunda é uma canção House moderninha, mas que emenda perfeitamente no clima da anterior, dando a impressão de ser mais um remix obscuro que se perdeu no tempo. O resultado é bom, cafona na origem e na intenção, como boa parte daquela década.

Cassius tem boas intenções mas peca na criatividade, tanto na ideia quanto na execução. Para quem não estava no planeta em 2013 e não sabe da existência do álbum de Daft Punk, este Ibifornia soará como o Mar Vermelho sendo aberto. Do contrário, é mais do mesmo com o agravante da pouca originalidade em toda parte. Mesmo assim, dá pra ver que os sujeitos têm talento e podem fazer algo sensacional a qualquer momento.

(Ibifornia em uma música: Blue Jean Smile)

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.