Cat Power – Wanderer

Cantora retorna com álbum emocional e intenso

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Ano: 2018
Selo: Domino
# Faixas: 11
Estilos: Folk Alternativo, Piano
Duração: 38:01
Nota: 4.5
Produção: Chan Marshall

Wanderer é o décimo disco da carreira de Cat Power, o primeiro em seis anos e o primeiro que ela grava por um selo que não o Matador Records desde 1996. São datas e marcas interessantes numa carreira tão marcada pela integridade de princípios e pela tradução destes em música. Os álbuns que Cat Power – alterego de Chan Marshall – registra são celebrações de verdades, emoções e vivências, algo que passa a milhas de distância do sistema de valores da indústria musical. Chan é uma das raras artistas que consegue esta conexão pessoal com fãs usando suas verdades e fatos da vida sem a menor precupação de superexposição. É uma relação natural com seus admiradores e estes esperam exatamente isso da artista.

Por isso que seus lançamentos são aleatórios e guardam pouca semelhança estética entre si. O trabalho anterior, Sun, de 2012, era noturno e próximo de elementos tradicionais do Pop Alternativo eletrificado. Há, entretanto, conexões entre ele, os anteriores e Wanderer, mantida pela emoção que Chan imprime em suas canções. Aqui ela assina também a produção e se preocupa em manter um clima de introspecção total ao longo das canções. Ela toca os instrumentos e assina os vocais, exceção para algumas intervenções de trumpete, pianos, cordas e pelo dueto com Lana Del Rey em Woman, a terceira faixa do disco. De resto, apenas Chan, sua versatilidade e empenho.

Wanderer não é um desses discos com grande som. Não tem aquela preocupação em soar aberto, pronto para ser abraçado por multidões, pelo contrário. Tem mixagem e engenharia que privilegiam a conversa próxima. Além disso, há momentos de real beleza e vulnerabilidade nas letras e melodias. Tudo por aqui é lento, preto/branco e melancólico, com ar de reminiscências que fazemos/somos quando vem a chuva de tarde e molha a janela, estabelecendo aquela conexão misteriosa com alguns momentos da vida que passaram e aproveitam esta hora pra voltar. Mais que isso, Chan consegue estabelecer esses vínculos e despertar emoções no ouvinte com alguns momentos de beleza incontestável.

De cara, a balada Horizon, que tem um arranjo de guitarra e piano, com a voz de Chan soando como se atravessasse um nevoeiro. O verso “Mother, I know your face/Father, still hold your place/Sister, I’m around you/Remember me/Brother, I’m on my way/I’m visiting” soa como um inventário sentimental de saudades e passados presentes. Black é uma valsinha que herda a carga estilística dos flerter com a Soul Music do passado; Robbin Hood, com voz e violão, é balada sutil sobre violência e pobreza, enquanto Me Voy é aceno dolorido e inevitável de partida. O grande momento, impressionante e impactante, é a versão fantasmagórica e reveladora para Stay, do repertório de Rihanna, que ganha um arranjo de piano gotejante, cordas e teclados ambientes para revestir a voz de Chan, que se multiplica em efeitos e variantes.

Wanderer é um trabalho 100% Cat Power, ainda mais sério, maduro e pungente que os anteriores, mostrando que a cantora amadurece, cresce e envelhece em público, valendo-se disso como diferencial e traço marcante de sua obra. Uma raridade.

(Wanderer em uma música: Stay)

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BOM PARA QUEM OUVE: Neko Case, Feist, PJ Harvey
ARTISTA: Cat Power

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.