Resenhas

Catavento – CHA

Novo disco de banda gaúcha traz excelente e bem construído delírio para a nova Psicodelia

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Ano: 2016
Selo: Honey Bomb
# Faixas: 9
Estilos: Psicodelia, Experimental
Duração: 37:38
Nota: 4.5
Produção: Francisco Maffei

A Psicodelia não é plenamente compreendida hoje em dia. Cada vez mais, vemos bandas preocupadas em produzir discos lotados de estereótipos e bastante superficiais, pouco se questionando sobre o que é ser de fato psicodélico. Parece que esses conjuntos se prendem a quadrados cada vez mais delimitados, recorrendo a guitarras repetitivas, solos infinitos de sintetizadores e vocais harmonizados reverberados para tentar provocar as sensações lisérgicas que tanto fizeram sucesso nos anos 1960 e ganharam recentemente fama em suas releituras contemporâneas. Mas ainda há nomes que mantém forte o real significado da Psicodelia vivo e a banda gaúcha Catavento ultrapassa qualquer lugar comum ao produzir um dos delírios mais profundos de 2016.

CHA pode ser um disco de muitos efeitos, repetições e sintetizadores, mas a construção de seu próprio mundo caótico e transcendente é o que o torna único dentro dos novos rumos da Psicodelia. A mixagem do disco faz parecer com que as faixas estejam distantes e envoltas de uma aura etérea, como se estivessem a vários anos luz de nós. Mas, ao mesmo tempo, a potência de suas estruturas e os timbres muito bem escolhidos nos fazem sentir o calor destes delírios.

Estamos praticamente flutuando no espaço sideral e cada faixa nos põe em um lugar do cosmo, sentindo as diferentes vibrações e influências dos astros. Aliás, metáforas espaciais caem como uma luva dentro do universo deste disco, principalmente pelo fato de que, quando em órbita, você não conseguir se mexer de acordo com sua vontade: está sempre à mercê de forças maiores – neste caso, as explosivas composições.

O novo trabalho dos gaúchos tinha tudo para ser um grande poço de caos e experimentalismo exacerbado, mas a produção afiada de Francisco Maffei tem êxito em selecionar frequências e volumes certos a fim de que possamos ter um mínimo de discernimento entre os elementos que formam a composição, assim como possamos ser tomados por completo pelas sensações que o conjunto bagunçado da obra nos traz. É um grande paradoxo, curioso de se decifrar e de se experimentar pois, por mais que as faixas tragam uma unidade bem consistente entre suas sonoridades, cada qual te leva para paisagens mais inusitadas.

Little Fishes abre o disco com uma hipnótica melodia, mas logo se torna uma ecoada e elétrica ode a Pink Floyd. The Sky sabe utilizar ótimos timbres de sintetizador para criar texturas lisérgicas e grandiosas em nossa percepção. O single Plantinha tem um riff mais concreto, mas serve apenas como a base para que ela cresça cada vez mais. Já Illlinoia é o momento máximo do disco, em que o experimentalismo não respeita nem mesmo o andamento da música, constante mudado durante seu curso, até chegar ao orgásmico final.

CHA é um grande momento na psicodelia brasileira, usando daqueles mesmos elementos comuns para criar algo complexo e uma experiência única de se escutar. Catavento entende o que o psicodelismo deve trazer e o faz de uma maneira fantástica. Novos lançamento da banda podem esperar, pois este é um trabalho cuja análise deve ser minuciosa e nem um pouco apressada. Um disco de mil sensações

(CHA em uma faixa: Illinoia)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.