Resenhas

Chaos In The CBD – A Deeper Life

Após sequência de singles e EPs, disco de estreia do duo de irmãos neozelandeses nos leva a uma viagem nostálgica, contemplativa e dançante

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Ano: 2025
Selo: In Dust We Trust
# Faixas: 14
Estilos: Eletrônica, Jazz, House
Duração: 69'
Produção: Chaos In The CBD

Uma longa jornada de mais de uma década foi percorrida pelos irmãos neozelandeses Louis e Beans Helliker-Hales, que formam o Chaos In The CBD, até a chegada de A Deeper Life. Dezenas de EPs e singles, talvez simbolizados por seu primeiro grande sucesso, “Midnight in Peckham”, pipocaram até esse lançamento – e tanta espera parece ter valido a pena. Ouvir o disco de estreia do duo é embarcar em uma viagem repleta de nostalgia e que poderia ter sido lançada diretamente em CD na década de 1990. São paisagens sonoras propícias para viagens de carro ou momentos presos no trânsito para relaxar; ecos da chillout music que inundou emissoras FM pelo mundo; cacoetes de trilhas de jogos de Playstation ou simplesmente faixas para apreciar a vista enquanto o CBD (ou THC) bate.

Maintaining My Peace”, com MC Novelist, tem tanto sabor da última década do século passado que poderia ser confundida com uma faixa perdida em uma coletânea que contaria Sade, Seal e Janet Jackson – não é pastiche, mas uma deliciosa homenagem a essa época. “Tearssegue o mesmo espírito e pede um videoclipe gravado direto para VHS, com Saucy Lady trazendo melancolia em sua voz enquanto linhas de synth dão conta de um crescimento contínuo ao longo da produção.

Tributos à música brasileira surgem em “I Wanna Tell Somebody“, com Josh Milan, e “Tongariro Crossing”, em companhia do saxofonista clássico neozelandês Nathan Haines. A primeira é um samba desconstruído cheio de soul na melodia entoada por Milan, e a segunda, com uma bela linha de flauta, ressoa o Brasil Core de praia-cerveja-cadeiras-de-plástico. Ainda que o duo afirme que o álbum é uma homenagem às raízes da Nova Zelândia, é inegável que há algo de uma atmosfera à brasileira permeando a massa sonora.

Ōtakipoderia estar na trilha do menu de um jogo de corrida de Playstation 1 – como Ridge Racer ou Gran Turismo –, com seu house de toques jazzísticos; enquanto “Love Language” segue o mesmo astral, temperando o molho ainda mais com doses de lounge music japonesa. É como se mudássemos o jogo, mas continuássemos no mesmo universo gamístico. Já a faixa-título escapa com maestria dos estereótipos do house, a partir de uma produção construída por diversos instrumentos em estúdio – é nostálgica, noventista, mas, ao mesmo tempo, contemporânea e original. É a síntese perfeita do disco, que destaca a contemplação, mas sem perder de vista a força dos sentimentos.

Depois de tantos singles e EPs que já atestavam o potencial do duo, A Deeper Life consagra de vez o talento dos irmãos. Figurinhas carimbadas em tantas pistas de dança ao redor do mundo, eles colocam sua experiência – provavelmente em muitas golden hours musicadas – a serviço de uma curadoria das mais afiadas. É uma estreia que apresenta um caos cirurgicamente orquestrado e, especialmente, uma música extremamente espiritual.

(A Deeper Life em uma faixa: “Love Language”)

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Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.