Resenhas

Charli XCX – how i’m feeling now

Concebido em meio ao isolamento, novo disco conserva a identidade futurista, mas adiciona carga emocional íntima

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Ano: 2020
Selo: Atlantic/Asylum
# Faixas: 11
Estilos: PC Music, Pop, Glitch
Duração: 37'
Produção: Charli XCX (exec.) A. G Cook (exec.) BJ Burton (exec.), D. L Harle, Dylan Brady, Palmistry, Mechatok

Em alguns filmes de ficção científica, temos a oportunidade de apreciar a leitura que os produtores fazem daquilo que seria a música do futuro – permeada por glitches de computador, um excesso de sintetizador e vozes sintéticas. Entretanto, não precisamos ir tão longe na linha do tempo para ter a oportunidade de apreciar sons futuristas. O futuro já chegou e ele está expresso claramente nas obras mais recentes de Charli XCX.

É nítido na discografia da produtora, compositora e cantora britânica um processo de reformulação da música Pop, desde seus iniciais flertes com o Indie Eletrônico, em True Romance (2013), até chegar a seu relacionamento intenso com a PC Music, em Vroom Vroom EP (2016) e Pop 2 (2017). A cada registro, Charli XCX leva a música Pop sempre um passo adiante e, assim, cada álbum é quase como um progresso científico. Ela escreve sobre o futuro, mas também o vivencia. Agora, não apenas os carros futuristas e os robôs ganham espaço em sua sonoridade, mas também se adiciona a atmosfera distópica do isolamento pelo qual passamos durante a pandemia de COVID-19.

Como todos, Charli precisou rever alguns de seus planos para o presente e o futuro. Antes da pandemia, ela pretendia soltar dois discos até 2021, mesmo tendo acabado de lançar seu grandioso álbum de parcerias, Charli (2019). Após a pandemia mundial e suas consequências, a britânica anunciou em uma chamada de Zoom que trabalhava em um terceiro disco, um que retrataria sua vivência de isolamento. E mais: o projeto seria construído apenas com os recursos que ela tinha à sua disposição. Assim, nasceu seu quarto disco de estúdio, how i’m feeling now. Um trabalho que conserva a identidade futurista de Charli XCX, mas coloca uma carga emocional bastante íntima.

O disco foi todo criado a partir de colaborações a distância, não apenas de seu time de produtores (que a acompanha desde Pop 2), mas de um constante feedback de seus fãs. Charli fazia lives e videochamadas apresentando seu material e colhendo opiniões diferentes. Como se os fãs fossem naturalmente amigos, confiando a eles a crítica de sua obra em construção. Em entrevista, a artista comentou que trabalhar com esse tipo de vulnerabilidade a colocava em uma tensão nova sobre seu processo de composição e que isso, de uma forma ou de outra, reflete o tempo em que vivemos. Sob esta nova perspectiva de composição, o disco traz clara em suas composições a necessidade de colocar para fora, de se comunicar para além do isolamento. E desta comunicação surgem os mais diferentes temas e espectros emocionais de Charli.

A primeira faixa do disco, “pink diamond”, já anuncia em timbres agressivos e distorcidos a ânsia de sair desse estado, principalmente quando Charli canta “I just wanna go real hard”. A saudade e o amor inundam a cantora no seu single “claws”, uma composição ágil e pesada que não poupa esforços em demonstrar seu afeto (“I like, I like, I like, I like, I like everything about you”). “detonate” traz fragilidades e inseguranças em uma composição nitidamente PC Music, com aura um pouco mais humana do que maquinal. “c2.0” é o momento mais intenso do disco, abusando da distorção e da Glitch Music para logo depois nos aliviar com um pouco de Ambient Music acelerado. “visions” encerra o trabalho com um tom até esperançoso, dizendo constante para si mesma “all these voices tell me to hold on”.

Charli XCX traz, em seu quarto disco, uma produção que resulta daquilo que está em seu alcance, e isso não é pouco. Com um grupo de produtores afiado e certeiro ao aproveitar os elementos mais marcantes de sua discografia, além de uma comunicação constante com seus fãs – tanto em feedbacks quanto em conversas sinceras –, Charli vive o futuro que sempre se relacionou à estética de sua obra. Um futuro incerto e distópico, mas sempre (e ainda) fundado em relações humanas. Uma construção robótica, mas cujo combustível é o afeto.

(how i’m feeling now em uma faixa: “claws”)

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ARTISTA: Charli XCX

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.