Resenhas

Charlotte Adigéry & Bolis Popul – Topical Dancer

União de músicos carrega discurso político forte sobre alteridade, permeado por ambientações eletrônicas inspiradas em house e techno

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Ano: 2022
Selo: Bounty & Banana/DEEWEE/Because Music
# Faixas: 13
Estilos: Eletrônica
Duração: 50'
Produção: Bolis Pupul, Charlotte Adigéry, David Dewaele e Stephen Dewaele

Charlotte Adigéry e Bolis Popul têm muito em comum. Ambos são estrangeiros que moram em Gante, na Bélgica, e vivem diariamente o drama de ser “o outro”, alguém que é sempre visto como diferente e que, a partir de seu fenótipo, é automaticamente colocado no posto de “forasteiro”. Topical Dancer, disco fruto da parceria dos dois músicos, parece ser dedicado a quem se sente dessa forma em seu contexto, onde quer que esteja no globo –s e pelo motivo que for.

Ela nasceu na França, de pais caribenhos (Martinique e Guadalupe) de ascendência yorubá/nigeriana. Já Bolis nasceu em Macau, território que há pouco mais de 20 anos ainda era dominado por Portugal em terras chinesas. Na Bélgica, os dois experimentam a realidade de ser o que não se é normalmente, de ser visto como exceção, como um elemento que sempre destoa da tal maioria. Ao invés de fazerem então uma música que os inserisse em um contexto artístico no qual se misturassem, eles decidem insistir na mesma ideia de “diferentes” que lhes deram.

Topical Dancer não chega a ser um disco de música experimental, mas pende mais para esse lado do espectro do que de um território mais pop. As batidas e ambientações eletrônicas, que parecem no geral terem sido inspiradas pelo house e o techno, transmitem parte da energia pesada, seca e até mesmo amarga de quem convive com essa dinâmica de exclusão, seguindo o que tantos outros artistas têm feito, com grande êxito nos últimos anos. Mas enquanto o pessoal do hip hop muitas vezes utilizam seus elementos para expressar a raiva, ou gente como Moses Sumney, Yves Tumor e Shamir abraçam uma sensibilidade exacerbada, Charlotte e Bolis rumam em uma direção mais leve no clima, sem perder a intensidade dessa realidade.

Logo no início, “Esperanto” apresenta sugestões do que não dizer e de como falar em diversas situações que, no modus operandi da “maioria”, são racistas ou machistas, por exemplo, enquanto “Blenda”, na sequência, afirma a liberdade de ser quem se é independente da maneira como os outros podem enxergar a pessoa. Já outros momentos do disco abraçam traumas passados “(It Hit Me)” e ressignificam experiências vividas e pressões para se adequar (“Reappropriate”). Há também momentos que expressam discursos intencionalmente positivos, como “Mantra”, mas, ainda assim, comunicam também todo o fardo da exclusão presente na obra como um todo.

O que Topical Dancer mais transmite é esse pesar de viver sendo visto não como se é, mas como “o outro” no lugar onde você chama de lar, ou mesmo de comunidade. A interpretação da cantora varia entre diversos tons de ironia e de deboche, mas mesmo esses momentos comunicam com grande eficácia que esses são alguns dos recursos usados para resistir a uma vida inteira nessa situação. Há espaço para o riso e para a dança, mas o que fica é a intensidade das batidas das músicas, que pulsam sob versos que serão identificados como verdade por excluídos ao redor do mundo.

(Tropical Dancer em uma faixa: “Esperanto”)

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Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.