“Mais do que qualquer coisa, nós queríamos capturar a ansiedade e o medo de ver o mundo se desfazendo”. Com uma frase como essa o quarteto americano Chat Pile consegue resumir sua intensa obra de estreia, God’s Country. São nove faixas que transitam entre sludge metal, noise, black metal e outros subgêneros agressivos do rock, criando um som sujo e brutal. Assim também são as letras, que passeiam por temas políticos, mas que geralmente são retratados de forma quase surreal. É como assistir a um filme de horror em que somos apresentados a temáticas sociais, porém traduzidas em tela de maneira asquerosa.
Se essa salada pode representar uma banda que ainda não sabe (ou mesmo não quer) se prender a um só gênero, mostra também um quarteto extremamente versátil, que busca em cada um desses subgêneros algum elemento que reforce sua narrativa. São guitarras carregadas na distorção, mas que ocasionalmente são trazidas a um ambiente de calmaria. São baixos que por vezes se comportam como uma segunda guitarra, aliados a baterias frenéticas, que embalam a angústia e a raiva das letras. Separados, esses elementos são bem simples (ainda mais num ambiente técnico e tecnicista como é o do metal), porém, unidos cozinham uma mistura potente.
Soma-se a isso a habilidade do vocalista Raygun Busch de urrar letras de forma bastante performática e, pronto, temos nossa fórmula da pólvora completa. Por vezes, a lírica surge como um spoken word, por vezes aparece num tom monotônico quase dopado. E, mais frequentemente, surge como gritos que extravasam os sentimentos mais hediondos que poderíamos sentir. Ele nos joga para dentro de suas narrativas surreais e nos ambienta dentro das histórias mais degradantes.
O repertório desenvolve comentários sociais a partir dessa premissa de capturar o quão decadente uma sociedade pode ser. Para tal, o grupo chafurda no lado mais obscuro da humanidade e traz de lá relatos (às vezes em primeira pessoa) do quanto nosso mundo está quebrado. São temas como a crise de moradia (“Why”), abuso de drogas (“Wicked Puppet Dance”), a pressão pelo “sucesso” num mundo capitalista (“Tropical Beaches Inc.”), o descontrole armamentista (Anywhere) e até mesmo tiroteios em massa (“The Mask”). As letras chegam a esbarrar em uma ambiguidade desconfortável, mas traduzem essa realidade confusa e [brutal] que a banda quer nos apresentar.
“Slaughterhouse”, música que abre o registro, joga o ouvinte num matadouro de gado e nos dá a perspectiva de como é estar ali preso sabendo que sua vez está chegando. Busch foca nos olhos dos animais e nos gritos deles (“Everyone’s head rings here /And there is no escape / There’s no motherfucking exit (…) And the sad eyes, goddamnit / And the screaming / More screaming than you’d think”) para criar essa sensação ominosa. Seja como alegoria ou como puro relato, a faixa já nos conta um pouco do que podemos esperar durante o restante da obra.
“The Mask” é outra que nos joga em uma perspectiva nada usual. A canção fala sobre um tiroteio em massa ocorrido em Oklahoma (cidade natal da banda), porém nos coloca na pele de Roger Dale Stafford, responsável pelos assassinatos. A frase “Line up the animals” é repetida diversas vezes, mostrando o sadismo de Roger durante o massacre. A banda parece nos tratar novamente como gado que vai para o abate. “I Don’t Care If I Burn” é uma das faixas mais fortes do álbum. Mesmo silenciosa, não contando com nenhum instrumento, ela nos eleva a um estado de nervos mostrando a linha pensamento de alguém que parece planejar um assassinato, alguém que odeia profundamente seu alvo. A voz sussurrada de Raygun e os barulhos do que parecem ser fitas adesivas sendo esticadas (e talvez amarrando sua presa) criam um clima digno de filme de terror.
E o álbum não podia terminar de forma mais potente e ameaçadora. “grimace_smoking_weed.jpeg” narra a história de um suicídio em que o personagem principal entra em uma bad trip causada por drogas e começa a ver um homem roxo que o persegue. Esse tal ser roxo é inspirado numa das mascotes do MCdonald’s, segundo a banda – o Grimace, em inglês, e Shake, na versão brasileira). Com mais de nove minutos, a exposição inquietante se desenvolve a partir de gritos vindos de uma mente que se deteriora. É o encapsulamento preciso do álbum, que, ao final do dia (ou da noite) alegoriza a degradação do sistema capitalista em que vivemos e morremos – seja pelas mãos dos nossos algozes ou pelas nossas próprias.
(God’s Country em uma faixa: “Slaughterhouse”)
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