Resenhas

Chico Bernardes – Chico Bernardes

Chico Bernardes, em sua estreia, prova que é possível acessar vazios interiores com delicadeza para, de repente, encontrar-se em algum deles

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Ano: 2019
Selo: Risco
# Faixas: 10
Estilos: Folk, Indie Folk, Indie
Duração: 46’
Nota: 3.5
Produção: Chico Bernardes e Gui Jesus Toledo

Se a adolescência é um período em que encontrar sua identidade em grupos sociais fora da família é muito importante, sair dela tem a ver com reconhecer-se como indivíduo. Talvez, seja por isso que Chico Bernardes deu seu próprio nome ao disco que lançou em junho, o primeiro de sua carreira. Formado por canções escritas ali em por entre seus 17 e 18 anos, o trabalho reúne reflexões e experiências trabalhadas pela introspecção. Segundo o músico, inclusive, as faixas não foram sequer feitas para serem ouvidas por outras pessoas para além dele mesmo.

Isso transparece em músicas como “Novo Momento”, “O Espelho” e “Me Encontrar”. Chico está em uma busca incansável por si mesmo e, nessas canções, ele divide conosco os caminhos que tem perpassado nesta viagem. No seu caso, aliás, a viagem tem alguns agravantes. Não é todo adolescente que cresce com o pai (Maurício Pereira) e o irmão (Tim Bernardes) sendo referências importantes da música nacional. Isso posto, Chico Bernardes (2019) não é somente um disco de escavação interior. É também uma afirmação de que o jovem artista já tem algumas das respostas que buscava.

Não à toa, há pouco ou quase nada de influência direta da música de seu pai neste seu primeiro LP. Do irmão, no entanto, ele parece não se importar em aproximar-se ligeiramente, principalmente do recente (2019), de O Terno. Em “Distante”, faixa que abre o disco, por exemplo, há resquícios também de Recomeçar (2017). Mas, isso ocorre muito mais pela opção por construir um espaço de intimidade do que por um apego musical a este tipo de sonoridade. Claro, sabemos que Fleet Foxes é uma grande influência para ambos os irmãos Bernardes, no entanto, a distinção entre a maneira como esses conteúdos os atravessam já está delineada.

Tanto que, em momentos mais elétricos como “Um Astronauta” e “O Espelho”, esse distanciamento se radicaliza e namora Grizzly Bear, outra favorita do músico. Contudo, o que se prende ao ouvido, de fato, são os momentos mais acústicos em que Chico se aproxima do Folk. Eles traduzem bem o que se vê na capa do álbum: um compositor, seu instrumento e um espaço onde eles possam florescer. De modo que, um dos maiores méritos do cantor, neste momento, é o seu jeito de entoar as sílabas pausadamente, com calma, em paz. O disco é uma extensão dessa voz: se, em geral, perscrutações pela alma soam intrincadas e perturbadas, essa aqui é uma viagem longa, delicada e, por isso mesmo, genuína.

(Chico Bernardes em uma música: “Me Encontrar”)

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Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.