Apesar de ser o segundo lançamento de Cícero em 2025, Uma Onda em Pedaços é o primeiro material inédito do músico carioca em cinco anos. O sucessor de Concerto 1 (um novo olhar para sua obra pregressa reorganizada e retrabalhada de forma orquestral) é um recomeço e, ao mesmo tempo, uma continuação: a reinvenção do artista nos revela novas abordagens, sonoridades e timbres a serem explorados – sem, de forma alguma, alienar seus antigos fãs.
Cosmo, lançado em 2020 e cuja turnê foi cancelada por conta da pandemia, é um marco que o músico parece, pelo menos em parte, tentar desconstruir em seu novo registro. Como o título reflete, este disco é feito a partir dos cacos de tempos diferentes, de personas diferentes e de um Cícero diferente. Talvez seja o disco mais múltiplo e multifacetado de sua obra; é claro, tendo ainda a MPB como alicerce, mas incorporando elementos variados para se reconstruir.
Agora, até mesmo o rap pode virar substrato. Se o músico sempre teve uma abordagem reducionista em sua poesia, em “Mente Voa” ele se permite ser prolixo e mostrar uma cadência bem diferente da que estamos acostumados a ver. Ao mesmo tempo, há acenos para o passado, como em “Dia Vai”, em que o músico dá uma piscadela aos antigos ouvintes, trazendo ecos principalmente da fase de Canções de Apartamento (2011), seu disco de estreia.
Há também elementos de jazz, indie e forró, que coexistem em uma colcha de retalhos sonora bem instigante e que deixa o álbum bastante fluido. Não à toa, Cícero convidou um extenso time de músicos para gravar – e a cada canção há quase uma nova banda o acompanhando. O resultado é um registro amplo em sonoridades e que consegue soar coeso. A amarra emocional precede qualquer alinhamento estético proposto aqui.
Com participações de Duda Beat (“Sem Dormir”), Tori (“Dia Vai”) e Vovô Bebê (“Tranquilo”), o disco apresenta seus temas também de forma livre e plural. Já com a abertura, “Pássaro Nave”, Cícero deixa claro que esse disco será sobre uma reconstrução. Afeto, tempo, perda, acolhimento, amor, equilíbrio e até mesmo questões de alienação em relação a tecnologia são transpostos ao disco como questões que estiveram na cabeça do artista ao longo dos últimos anos. Uma Onda em Pedaços mostra um novo velho Cícero e, sobretudo, um artista que acolhe o passado sem perder de vista que o futuro está à frente.
(Uma Onda em Pedaços em uma faixa: “Pássaro Nave”)
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