Resenhas

Cidadão Instigado – Fortaleza

Quarto disco é unânime, coeso e mostra o Rock que o grupo sempre quis criar

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Ano: 2015
Selo: Independente
# Faixas: 12
Estilos: Rock Psicodélico, Rock Progressivo
Duração: 56:00
Nota: 4.5
Produção: Cidadão Instigado

Fortaleza é a evolução natural que esperávamos de Cidadão Instigado após o hiato de seis atos de seu último disco, o incrivelmente psicodélico e praieiro UHUU!. Esperado, porque tudo indicava que a nova identidade do grupo se aproximaria muito mais do que Rock’n’Roll, principalmente a sua vertente Progressiva, do que qualquer outro gênero – a banda nos últimos anos vem realizando performances completas do famoso Dark Side of The Moon (Pink Floyd). No entanto, o trabalho é mais do que somente o progresso, é também o processo da redescoberta.

O disco é provavelmente o ato mais coeso e organizado do grupo, unidade que surgiu no período em que cada um seguia os seus trabalhos como “funcionário” de outras bandas como Karina Buhr, Otto, Arnaldo Antunes e Edgard Scandura, para citar alguns. As faixas se organizam entre si formando um conjunto significante musicalmente e quase indissocíável. Temos momentos mais roqueiros, como em Dizem Que Sou Louco Por Você, passamos pelas lindas baladas regidas por um trabalho de voz riquíssimo à la Crosby, Stills & Nash, em Os Viajantes, para terminar no regionalismo árido de Perto de Mim. Essa rota constante, interligada e conectada traz um sentido de grandeza gigantesco ao álbum e se torna padrão por toda a sua duração de quase uma hora.

Também é o disco que parece extravasar os louros alcançados em produções anteriores para se mostrar ainda maior, e a polivalentia de Fortaleza só denuncia ainda mais esta percepção: arranjos bem feitos, cuidado na narrativa e transformações atmosféricas entre cada música. Ao vivo, somos ainda mais surpreendidos – o posto de “maior banda de Rock Brasileira”, que parece ter sido esquecido diante do desinteresse de grandes gravadoras pelo gênero, tem um sério candidato a vencedor, em uma performance digna de arenas e nervosa em garagens.

Não é a toa, a banda (que tem quase vinte anos de estrada apesar da relativamente modesta discografia de quatro álbuns) é fruto da experiência de seus membors não só como compositores, mas também como interpretes. Ao pescar todas as influências que acometeram a juventude de todos – Led Zeppelin, Thin Lizzy, Replicantes e Black Sabbath – e uni-las ao recente pluralismo alcançado ao trabalhar com músicos diversos, o grupo fez um disco que evidencia vertentes do Rock não retomadas recentemente. Longe da cópia, as origens quase que integralmente ceareneses do grupo (quatro dos cinco são de Fortaleza), aparecem na levada do Baião regional do Ceará e o transformam em Rock Progressivo. A dobradinha quase uniforme Besouros e Borboletas e Ficção Científica é maravalihosa, dificilmente não poderia estar nessa ordem e mostra o que Cidadão Instigado se tornou.

Existem quebra de ritmo, texturas e unidade em cada faixa, deixando a experiência não só rica, mas também complexa. No primeiro instante, Fortaleza remete não à capital, mas ao substantivo comum, tamanha a proteção que o grupo tem diante de acordes e sons relativamentes mais pesados. No entanto, a beleza aparece nos mínimos detalhes e principalmente no trabalho de voz do grupo. Assim, tal barreira não se mostra intrasponível e pode aos poucos ser ser melhor absorvida. Logo na segunda audição, a fortaleza se quebra e já estamos muito mais familiarizados e espantados com a riqueza deste trabalho.

Obviamente, a cidade é lembrada na faixa-título, que – nas palavras de seu líder Fernando Catatau – é a percepção da banda sobre as mudanças recentes na capital e a sua verticalização e concentração de shopping centers. Green Card também segue ironicamente a ideia de liberdade que o mundo estrangeiro poderia conceder a um brasileiro. Nesse misto de sonoridade mais pesada do que estávamos acostumados a ouvir da banda e leveza em regionalismos, Cidadão Instigado parece ter encontrado o som que sempre desejou fazer: a sua versão do Rock’n’Roll consolidada na excelente Quando a Máscara Cai. E para muitos, a alegria é ver que o Progressivo, gênero carregado de popularidade na década de 1970 foi sua escolha certeira. Combinado à inerente psicodelia sempre emananada, temos a transformação emFortaleza, disco imperdível e belíssimo como não víamos há muito tempo.

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Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.