Resenhas

Clairo – Sling

Em segundo disco, sensação do Bedroom Pop se volta a referências dos anos 1970 e respira, serena, após seu sucesso estrondoso

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Ano: 2021
Selo: Fader/Republic/Polydor
# Faixas: 12
Estilos: Bedroom Pop, Folk, Indie
Duração: 44'
Produção: Clairo e Jack Antonoff

Claire Cottrill, mais conhecida pelo seu nome artístico Clairo, produz explosões arrebatadoras a partir de um universo mundano e cotidiano. Em 2017, com uma simples gravação de si mesma dançando e cantando pela câmera do computador, produziu um dos marcos do Bedroom Pop, especialmente para a geração Z: o tímido clipe caseiro de “Pretty Girl”, que hoje já soma mais de 75 milhões de visualizações no YouTube. Após a gravação de seu primeiro EP, Diary 001 (2018), ela partiu em uma turnê mundial – que inclusive passou pelo Brasil – tirando adolescentes dos refúgios emocionais de seus quartos, para gritar hinos como “Flaming Hot Cheetos” e “Bubble Gum”.

Entretanto, as explosões mencionadas não se referem apenas aos números de streamings e a dimensão de suas turnês, mas também a qualidade e o impacto de seu trabalho. Seu disco de estreia, Immunity (2019) exemplifica bem este movimento. Uma investigação profunda da vulnerabilidade e saúde mental da compositora, em um disco que nos toca tanto pelo conteúdo, altamente identificável, como pela sonoridade acolhedora. Clairo consegue enxergar particularidades preciosas no ordinário. Afinal, seu olhar sincero e minucioso é uma de suas maiores características. O que acontece então, quando este olhar garimpeiro se depara com um cotidiano totalmente embaraçado e quebradiço? A tentativa de dar conta disso toma forma em seu segundo disco.

Apesar da situação pandêmica contribuir (e muito) para bagunçar o cotidiano de Clairo, não é apenas sobre isso que Sling trata. Após um contato bruto com a dinâmica comercial de grandes gravadoras, principalmente por conta do singles de seu primeiro disco serem impulsionados pelo Tik Tok, sua vida acelerou em proporções desgastantes. Em entrevista para o The Guardian, Clairo comenta que este contato com a indústria fonográfica pareceu corroborar com sua impressão anterior: de que sugam o máximo de jovens mulheres até elas não terem mais juventude alguma. Clairo se sentia cansada e para lidar com esta magnitude, seu novo disco soa como estratégia de refúgio para que ela pudesse retomar a sua lógica habitual de composições. Além disso, a situação pandêmica forçou Clairo a retornar para a casa de seus pais em Atlanta, Georgia –uma visita na qual ela pôde entrar em contato com temas adormecidos, bem como revisitar a relação com sua família. É neste retorno criterioso ao universo cotidiano que este disco é construído.

Para isso, Clairo se vira à década de 1970, uma fonte primorosa de referências para diversificar a sonoridade deste novo disco. Soma-se a isso, a parceria com o guru do Pop moderno, o produtor Jack Antonoff, que sai um pouco da sua confortável década de 1980, para imergir em flertes com o Folk campestre de Joni Mitchell e Carole King. O piano e o violão são os principais aliados de Clairo nesta tentativa de domar a realidade desenfreada, mas também há espaço para arranjos envolventes de cordas, metais quentes e alguns sintetizadores mais sutis. E mesmo ainda fiel à estrutura Pop convencional, Clairo encontra espaço para acomodar alguns acordes estranhos – fruto daquele olhar sarcástico que no meio da normalidade é capaz de destoar um pouco o tom da conversa. Assim, este é um registro que se encolhe mais do que o primeiro, porém produz no ouvinte uma sensação igual (ou maior) de lidar com tudo ao redor.

“Bambi” abre o disco aos poucos, com camadas esparsas de pianos e cordas distantes, como se estivesse freando o ritmo alucinado do mundo para podermos ingressar no universo de Clairo – como um ritual. “Patridge” traz poucos elementos, mas deixa a voz da compositora preencher quase tudo, em tons melancólicos de um Folk bem distante das grandes metrópoles. Apesar de não ser inédito, o single “Blouse” ainda nos impacta por focar todos os holofotes na narrativa de Clairo – um dos momentos em que brilha aquele olhar terno brilha. “Joanie” é ensolarada como uma abertura de uma série como Cheers, mas também imprime certa psicodelia nos sintetizadores, sutis e hipnotizantes. Por fim, “Management” traz a simpatia de seu arranjo classudo, como Beach Boys, entreposto sobre a voz suave de Clairo. Quase como uma elegia para o caos que já passou (pelo menos, a maior parte dele).

Sling parece realizar um movimento contrário ao que a obra de Clairo nos mostrou até então. Ao invés de ir do seu mundo particular para a dimensão pública, ela parte do grande e retorna para o pequeno, com um refúgio. Entretanto, a jovem compositora não usa este lugar reservado como uma tentativa de fugir do mundo, mas como um momento em que precisa parar para poder digerir tudo. É um disco que autoriza o ouvinte a tirar um minuto para respirar.

(Sling em uma faixa: “Joanie”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.