Clarice Falcão – Problema Meu

Novo disco da cantora vem pronto para o sucesso, mas soa forçado

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Ano: 2016
Selo: Chavalier de Pas
# Faixas: 14
Estilos: Pop Alternativo, Indiepop, Singer/Songwriter
Duração: 40:42
Nota: 3.0
Produção: Alexandre Kassin

Não é preciso exercitar demais a mente para notar que este segundo álbum da cantora e humorista Clarice Falcão será um sucesso. Todos os elementos necessários para isso estão dispostos meticulosamente ao longo das canções e pensados cientificamente para funcionar. Há o humor urbano da trupe do Porta dos Fundos, da qual Clarice fazia parte até pouco tempo; há certa doçura no timbre vocal; há alguma habilidade na confecção de letras que visitam os sentimentos nesta época tão estéril para eles. E há a capacidade de revestir todos os momentos de Problema Meu com uma dose generosa de feminilidade, quase uma (auto)crítica de costumes. Além disso tudo há a produção de Alexandre Kassin, levada adiante com o objetivo único de conceder às composições de Clarice uma expansividade Pop moderninha, no sentido Los Hermanos do termo. Tudo parece milimetricamente no lugar e isso, talvez, seja o maior problema por aqui. A produção clean do primeiro álbum, Monomania, mais próxima do Folk estilizado, faz falta.

Veja, Clarice é representante de uma intelectualidade antenada, bem nascida, conectada, bem humorada, com forte poder de influência em mãos. A força da divulgação online e na TV é moeda fortíssima nos dias de hoje, todos sabemos bem, e este trabalho é fruto absoluto dos nossos tempos. É uma conversa no bistrô chique sobre memes no Facebook, foras no Whatsapp ou algo que se viu no YouTube, tudo inevitavelmente cool, descolado, espirituoso e vertiginosamente engraçado. O que salva o disco e quase tudo contido nele é que esses assuntos e os sentimentos/pensamentos que surgem a partir deles, são absolutamente tudo para muita gente disposta a ouvir Clarice e suas canções. E, nisso, não cabe qualquer argumentação contrária, o álbum é eficientíssimo.

Claro que há momentos engraçados de fato, caso da melhor canção do disco, Deve Ter Sido Eu, na qual os sentimentos competitivos entre as mulheres de ontem e de agora são escrutinados com franqueza confessional, algo que, certamente fará plateias femininas cantarem a letra completa em shows pelo Brasil afora. O hit Irônico traz para a ordem do dia a inevitável capacidade das mulheres dominarem os homens sem dó, mesmo que estes pensem que estão sempre no comando. É outra franca confissão de pensamentos, algo simpático e, para nós, homens, extremamente cruel, porém, necessário para aqueles que insistem em manchar o nome da classe com comportamentos às vezes lamentáveis. A produção de Kassin é extremamente prejudicial na faixa, com um típico arranjo de fanfarra gourmetizada, que vai crescendo, crescendo e absorvendo tudo ao redor. Outro arranjo realçaria a letra e faria mais sentido por aqui.

Clarice tem noção que é cantora razoável, nada além. Sendo assim, Duet e L’amour Toujours (I’ll Fly With you), tentativas de flanar com letras em inglês, soam pretensiosas e muito dispensáveis. Melhor ficar com as boas Se Esse Bar Fechar, momento de singeleza e contemplação perdido no meio do álbum, Banho de Piscina, quase adernada por arranjo “bregourmet”, Vagabunda, com letra esperta e a autosacaneante Clarice, que se vale do recurso humorístico manjado da autodepreciação como estratégia de encantar. Funciona. Se há uma questão séria com Problema Meu é a pouca sobrevida que a maioria das canções têm. As conversas bem humoradas e espertas de algumas letras perdem totalmente o sentido se ouvida novamente, algo que é típico das peças que usam o humor como elemento importante.

Talvez Clarice Falcão ainda esteja devendo um álbum mais desarmado, mais natural, sem a impressão de que tudo foi colocado em seu lugar para funcionar como um relógio. A naturalidade insinuada em atitudes e nas próprias narrativas ficam prejudicadas e perdem em espontaneidade. Mesmo assim, há elementos interessantes aqui e ali, que justificam nova audição daqui a algum tempo. Se você não se importa com nenhum dos elementos argumentados ao longo do texto, este disco é a trilha sonora do seu mundo. Pelo menos até o meio do ano, no máximo.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.