Resenhas

Claud – Super Monster

Disco marca uma estreia repleta de sinceridade e apelo Pop, que discute e desconstrói estereótipos da geração Z

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Ano: 2021
Selo: Saddest Factory Records/Dead Oceans
# Faixas: 13
Estilos: Bedroom Pop, Indie Pop, Dream Pop
Duração: 37'
Produção: Claud, Cameron Hale, Bram Inscore, Roger Kleinman, Josh Mehling, Dan Nigro, Jacob Portrait, Zack Seman e Shelly

É um movimento natural gerações anteriores criticarem as mais novas, e com a geração Z isso não poderia ser diferente. Com uma linguagem tecnológica natural, as expressões desta geração se alastram pelas mais diversas redes sociais. Não são como millenials, que aprenderam a usar a internet. Ela sempre esteve lá, presente em suas relações com o mundo e consolidada de uma forma mais complexa. É justamente por este campo que o descaso e as críticas de gerações anteriores se alastram, colocando quase sempre como argumento, a superficialidade em prol de manter sua reputação online intacta. Algo como aquele sentimento da vida escolar nos anos 1990, porém agora o terreno é o mundo todo.

A geração Z também é acusada de ser supérflua, investindo a maior parte do tempo em danças de TikTok, adquirindo conhecimento por meio do YouTube: tudo isso ao mesmo tempo que administra as crises emocionais típicas da adolescência/juventude. E é aí que está um dos maiores diferenciais desses jovens. Ao contrário do que supõem os saudosistas do “no meu tempo era melhor”, a geração Z também é uma dotada de consciência emocional bastante madura: reconhecendo a necessidade de terapias, desconstruindo conceitos e com uma abertura emocional que muitos adultos jamais sonhariam em ter. É nesse misto de persona online em contato com suas emoções e com o mundo todo também que encontramos Claud e sua estreia repleta de sinceridade.

Diferente da artista neozelandesa BENEE, que em seu principal single se diz “Supalonely”, Claud procura um outro jeito de personificar tudo aquilo que sente: Super Monster. Uma rápida passada pelo título pode nos levar a encarar esse monstro como dotado de uma carga pejorativa, algo que dá medo ou indesejável. Não. Não é o aspecto tenebroso do monstro que interessa para Claud, mas sua característica amorfa. O monstro é diferente para cada pessoa, justamente pelos diferentes medos que cada um tem. Não somente isso, mas o monstro é uma construção de diferentes elementos – nunca é apenas os olhos grandes, ou uma boca de dentes afiados que dá medo nas pessoas, é o conjunto da obra. Nestes aspectos, Claud parece dar forma a esta relação que a geração Z tem com o mundo, de estar em contato com tanta coisa que sua expressão e personalidade formam uma amálgama de referências. O super monstro de Claud traduz a sua complexidade, mas também desconstrói o medo que temos de não compreender toda esta nova geração.

Para isso, Claud se apega ao Bedroom Pop, gênero musical que há algum tempo tem oferecido um ambiente seguro para que artistas possam expressar, do conforto de seu universo, suas angústias. Temas como crescimento, primeiros amores, autodescobertas e o cotidiano pré-COVID são alguns dos espaços pelos quais Claud transita. Estes temas, quase universais para quem já passou pela juventude, são responsáveis pela conexão que o disco estabelece com o ouvinte. É um disco sobre o compartilhamento de experiências e cuja abertura para o público é um reflexo direto desta peculiaridade da geração Z. O sentimento geral ao redor de Super Monster é de uma conversa informal entre amigos, mas que toca com uma força significativa para refletirmos sobre as nossas primeiras vezes.

A primeira frase da faixa de abertura do disco (“Overnight”) dá o pontapé inicial com aquela sensação dramática e típica dos primeiros amores: “Eu me apaixonei como um idiota durante a noite”. A partir daí, Claud vai se abrindo com mais intensidade, dando espaço para que “Soft Spot”, uma balada quase Shoegaze, que disseca a desilusão e o sentimento de impotência perante o término. “Ana” é aquela típica canção dedicada a uma pessoa específica, que transita entre o mistério de saber quem é esta pessoa e investigar o que aconteceu no passado. A ironia e o sarcasmo da geração Z não são ignorados no disco, e “That’s Mr. Bitch To You” é responsável por um pequeno hino Punk sobre recalque e o um outro efeito possível do término – quando você se sente indestrutível. “Falling With The Rain” encerra o registro em um tom inegavelmente Pop, cativante, mas também impetuoso no jogo de humores entre o Dream Pop e as ambientações introspectivas.

Mesmo que sejam as experiências de Claud que estão em jogo em Super Monster, é difícil não se deixar envolver pela sinceridade das letras e as melodias cativantes. No final das contas, Claud se aproxima de nós, colocando um pouco de lado todo esse debate desnecessário acerca da geração Z e sua suposta superficialidade. Claud nos faz perceber que nós também somos esses “super monstros”, refletindo em parte nossas próprias inseguranças.

(Super Monster em uma faixa: “Overnight”)

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ARTISTA: Claud

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.