Resenhas

Clipse – Let God Sort Em Out

Com lirismo cortante, revigorado e sofisticado, o duo protagoniza uma volta e tanto

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Ano: 2025
Selo: Roc Nation
# Faixas: 13
Estilos: Rap, Coke Rap
Duração: 40'
Produção: Pharrell Williams

“This is culturally inappropriate”. É repetindo esse quase-mantra durante boa parte de Let God Sort Em Out que o duo Clipse anuncia o confrontamento contundente realizado durante o disco. Mais de 15 anos separam esta da última reunião em estúdio dos irmãos Pusha T e Malice, que, ao longo dos anos 2000, ajudaram a consolidar o coke rap– subgênero cujos temas circundam tráfico, consumo e diferentes ecos da vivência social relacionada a cocaína. Se o tema era peça central na época, agora é apenas um dos substratos das canções da dupla, que traz Malice convertido ao cristianismo (motivo de ter se afastado do projeto por tanto tempo) e um Pusha T com novas experiências de vida. Maturidade e espiritualidade se misturam ao coke rap através de um lirismo intrincado, com versos de uma inteligência poética que apenas os dois seriam capazes de construir.

O repertório desdobra num fino equilíbrio entre religião e crime, deflagrando um contraste interessante entre a fé de Malice e o passado relacionado aos vícios que fizeram a carreira do Clipse acontecer. Um contraponto ao passado “vilanesco” da dupla chega já na faixa de abertura, “The Birds Don’t Sing”, uma homenagem aos pais dos irmãos – que morreram com poucos meses de diferença um do outro, entre 2021 e 2022. Num movimento quase gospel (e com a ajuda de John Legend e o coral Voices of Fire), a letra explora força e vulnerabilidade usando ainda a citação do documentarista Werner Herzog, “The birds don’t sing, they screech in pain”, retirado do filme Burden of Dreams (1982), sobre as duras condições de sobrevivência na floresta amazônica.

Além de Legend, a dupla conta com um time estrelado de convidados, entre eles Kendrick Lamar (“Chains & Whips”), Tyler, The Creator (“P.O.V.”), Stove God Cooks (“F.I.C.O.”), NAS (“Let God Sort Em Out/Chandeliers”), além, é claro, da produção grandiosa de um antigo colaborador: Pharrell Williams (que produzia para os irmãos enquanto ainda era parte do duo The Neptunes ao lado de Chad Hugo). Para além das acrobacias líricas de Pusha T e Malice, é preciso ressaltar o papel único de Williams na concepção desta obra, ao conseguir amalgamar beats minimalistas e uso de samples dissonantes de forma salientar as rimas sem nunca ficar em segundo plano ou se tornar um mero acessório.

“So Be It”, é um bom exemplo disso: a canção usa um sample desacelerado de “Maza Akoulou”, do músico saudita Talal Madah, num misto de exaltação e apropriação cultural (com o mantra “This is culturally inappropriate” sendo repetido várias vezes) enquanto sobrepõe batidas reversas à faixa. Soma-se a isso a progressão lenta e densa do flow da dupla, criando um contraste rítmico bastante interessante. “So Far Ahead” mostra outro lado da produção de Williams, marcada por beats pesados, graves fortes e uma atmosfera mais densa – contrastando com a vibe quase angelical durante o refrão.

Dono de um lirismo cortante e sofisticado, somado a habilidades únicas para desenvolver uma cadeia intrincada de rimas, o duo protagoniza uma volta e tanto. Let God Sort Em Out é uma evolução que mostra uma postura diferente da dupla frente a velhos e novos temas –os irmãos se permitem ser mais vulneráveis e pacientes, sem perder a urgência tão característica. Ao contrário de medalhões que surgem com discos que parecem seguir de onde pararam anos atrás, este registro é uma versão autenticamente 2025 de Pusha T e Malice, em muitos sentidos.

(Let God Sort Em Out em uma faixa: “So Be It”)

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ARTISTA: Clipse

Autor:

Apaixonado por música e entusiasta no mundo dos podcasts