Resenhas

Cloud Nothings – Here And Nowhere Else

Sem Steve Albini, banda consegue criar disco direto, sem perder nenhuma das melhores características que popularizaram seu último disco

3,461 total views, no views today

Ano: 2014
Selo: Carpark Records
# Faixas: 8
Estilos: Indie Rock, Garage Rock, Pop Punk
Duração: 31:24
Nota: 4.0
Produção: John Congleton
SoundCloud: /tracks/131156646
Itunes: http://clk.tradedoubler.com/click?p=214843&a=2184158&url=https%3A%2F%2Fitunes.apple.com%2Fbr%2Falbum%2Fhere-and-nowhere-else%2Fid796039691%3Fuo%3D4%26partnerId%3D2003

Muitas vezes, música é momento. Sabe aquela história da “melhor banda de todos os tempos da última semana”? Todo fã de música passa por isso diversas vezes em um mês e até mesmo em sete dias. Mas um pensamento inevitável é tentar avaliar qual banda vai resistir ao tempo, qual disco vai riscar de tanto ser tocado e qual vai ficar acumulando poeira na prateleira enquanto as novidades musicais continuam parecendo mais atraentes?

Cloud Nothings é a banda do jovem Dylan Baldi. 22 anos e um dos caras que desde Stephen Malkmus, do Pavement, mais chegam perto de me fazer questionar a afirmação de que quem tenta não passar imagem alguma, também está passando uma imagem. Here And Nowhere Else é o quarto álbum deles, mas não se sinta mal caso achasse que era o segundo. Attack On Memory, de 2012, conseguiu com a ajuda do produtor Steve Albini, atingir o máximo potencial dos garotos naquele momento e indicar um novo caminho para Dylan Baldi como compositor e líder de uma das mais relevantes e talvez mais subestimadas – justamente pela discrepância entre qualidade e reconhecimento – bandas de Rock da atualidade.

I’m Not Part Of Me é a faixa que encerra o novo disco e paradoxalmente um ótimo ponto de partida para discuti-lo. Cloud Nothings é uma banda de Rock, influenciada naturalmente pelo Punk, pelo Emo e por ramificações de ambos. Mesmo assim, o que salta aos ouvidos em uma faixa como essa e na maior parte das composições de Baldi é o tom Pop que elas ganham com refrões perfeitos para cantar junto e ganchos que a indústria fonográfica gasta milhões para forçar dentro de algum sucesso do rádio. Ao mesmo tempo, o que distancia a banda de ser realmente Pop são as pequenas imperfeições das faixas, frases que parecem ter uma palavra a mais do que a melodia permite, ou aquele trechinho que saiu com uma pronúncia esquisita no calor da gravação.

Essas imperfeições são também o que fazem o disco ganhar mais a nossa simpatia com o tempo, causando até estranhamento quando ouvimos uma versão ao vivo em que a faixa não saiu daquele jeito que estávamos acostumados. Parece que após algumas dezenas de plays, ouvimos uma música toda esperando uma sílaba específica – no meu caso por exemplo, a pronúncia incomum e arrastada da palavra before logo nos primeiros versos de I’m Not Part Of Me.

Não pense que tudo isso é algo que ficará nítido numa primeira audição. Dylan conseguiu em Here And Nowhere Else, soar muito mais despreocupado e desligado de qualquer tentativa de parecer alguma coisa. Apenas reuniu os amigos e fez o que sabe e gosta de fazer. É um disco muito imediato e que não te cospe referências e inspiração o tempo todo, como bem diz o título do trabalho, nos faz pensar apenas naquele momento, naquele lugar que estamos e em nenhum outro.

Essa característica muito mais evidente no novo trabalho do que em Attack On Memory talvez seja o único comentário negativo possível de ser feito ao trabalho. Alguns podem sentir falta da ambição de faixas épicas como Wasted Days, mas cai numa questão de pura opinião e que de forma alguma tirou o encanto de singles praticamente perfeitos como Now Hear In ou Psychic Trauma.

Algo que também me chamou a atenção ao analisar as letras do disco é que são muito abertas com relação ao tema que estão tratando – na maioria das vezes amor – mas de certa forma, conseguimos moldar o significado de cada frase para um momento específico de nossas vidas, o que torna o disco extremamente pessoal e no meu caso, já que estava preparando meus argumentos para a resenha, fui levado a pensá-las como extremamente precisas em descrever a trajetória da banda neste momento, tentando encontrar seu lugar, lidando com um sucesso sólido, que parece só crescer com o tempo e ser imune a modismos.

Essa imunidade está na sinceridade de Dylan Baldi, consigo mesmo e com seus fãs. A banda mira alto, mas sem tirar os dois pés do chão. Tocam o que sabem tocar e falam do que se sentem a vontade para falar e isso não é pouca coisa. Se este é o segredo para não ser apenas a “melhor banda de todos os tempos da última semana” eu não sei, mas os dois últimos discos do Cloud Nothings não devem pegar poeira na minha estante por um bom tempo.

3,462 total views, 1 views today

Autor:

Nerd de música e fundador do Monkeybuzz.