Resenhas

Cold Specks – Fool’s Paradise

Disco de produtora e compositora somálio-canadense traz olhar sensível e crítico para sua história e cultura

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Ano: 2017
Selo: Arts & Crafts
# Faixas: 10
Estilos: Soul, RnB, Chillwave
Nota: 3.5
Produção: Ladan Hussein e Jim Anderson

É fantástico como a obra de um artista pode revelar muito sobre seus valores e reflexões no decorrer do tempo. e para Ladan Hussein, mais conhecida por seu projeto Cold Specks, isso ganha um significado ainda mais importante com o lançamento de seu novo disco. Conhecida por mesclar o sinistro e o belo em composições que caminhavam entre nuances Indie, a compositora e produtora somálio-canadense parecia sempre estar preocupada em trazer temas bastante íntimos em suas composições, fazendo com que seus disco funcionassem como diários de reflexões sinceras. Entretanto, passados três anos desde seu último álbum, Neuroplasticity, ela retorna ao estúdio com pretensões bastante distintas daquelas que lhe renderam fama e uma cabeça que colecionou dúvidas e certezas por bastante tempo.

Fool’s Paradise é o disco mais pessoal de Ladan, à medida que traz um exercício de retomada e reflexão de suas origens africanas. É importante deixar claro que isso não significa que temos um trabalho repleto de percussões e estereótipos da dita música folclórica. Ao entrar em contato com sua cultura-mãe, a compositora também compreende a influência da música Pop enquanto ela crescia e, desta forma, temos uma mudança radical daquele Indie aleatório para um denso e bem produzido experimento do R&B com toques de Chillwave e influências dos anos 1990, como Sade e até mesmo Aphex Twin. É interessante ver como o contato com o passado altera nossas percepções e o quão pessoal isso se revela na manifestação artística de cada um. Cold Specks se permite lançar em diferentes direções e isso não a torna desrespeitosa com o legado criado nos discos passados, inclusive cria uma relação de uma nova etapa de um processo natural.

Embora Ladan tenha se mostrado bastante amiga de ambientações escuras e sinistras, Fool’s Paradise trabalha com diferentes humores. A faixa que dá nome ao disco abre o tracklist com um foco primário para a voz da compositora e depois nos envolve com batidas sensuais da R&B. Solid, por sua vez, faz um trabalho envolvente com os timbres oitentistas de sintetizadores. Ancient Habits é mais soturna e vagarosa, mas mesmo assim traz um sentimento de alegria entre as nuances tortas das sonoridades escolhidas. Void traz os arranjos para um campo mais agressivo, deixando claras as referências do Gothrock e até mesmo do New Wave. Two Worlds funciona como a balada do disco, dispensando as batidas e voltando toda atenção para o íntimo e belo confronto destas duas culturas expressas na composição. Por fim, Exile encerra este disco com arranjos que lembram bastante a sonoridade de discos passados, como se a compositora estivesse afirmando que o passado não será ignorado.

Com um trabalho surpreendente e que aponta uma direção que é ao mesmo tempo curiosa e inovadora, Cold Specks se liberta de estéticas pré definidas para construir sonoridades que façam sentido dentro desta investigação de sua história. Fool’s Paradise funciona como um disco que agrada tanto àqueles que se cativaram pelo Indie soturno do primeiro disco, quando pelos passeios e experimentos Rnb desta nova fase. Um disco sobre mudanças construídas em um olhar crítico e sensível do passado.

(Fool’s Paradise em uma faixa: Fool’s Paradise)

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BOM PARA QUEM OUVE: Sade, Aphex Twin, Solange
ARTISTA: Cold Specks
MARCADORES: Chillwave, RnB, Soul

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.