Resenhas

Coldplay – Ghost Stories

Quarteto tenta resgatar suas melhores características, mesmo tendo que cumprir tantas obrigações

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Ano: 2014
Selo: Parlophone
# Faixas: 9
Estilos: Indie Pop, Indie, Pop Rock
Duração: 40'
Nota: 3.5
Produção: Tim Bergling, Paul Epworth, Daniel Green, Jon Hopkins, Rik Simpson, Avicii e Coldplay
Itunes: http://clk.tradedoubler.com/click?p=214843&a=2184158&url=https%3A%2F%2Fitunes.apple.com%2Fbr%2Falbum%2Fghost-stories%2Fid829909653%3Fuo%3D4%26partnerId%3D2003

“Fantasmas” é uma figura de linguagem que denota, como não é difícil deduzir, algo que um dia existiu e, mesmo com sua morte, continua a nos perturbar de alguma forma, como se sua presença pudesse ser sentida mesmo sem aquilo estar vivo. É o fim de um relacionamento, um grande trauma ou qualquer experiência que deixe uma cicatriz no corpo ou na alma. Ao contrário do que seus pais te disseram na infância, esses fantasmas existem sim.

Dizem que Ghost Stories é um disco conceitual que Coldplay fez baseado no divórcio recente de Chris Martin – e talvez seja mesmo, por mais sensacionalista que a ideia pareça. Com um clima muito próprio criado por músicas que se entrelaçam, o álbum vem também para expor os fantasmas estéticos e do sucesso da banda.

A narrativa irregular acompanha diversos humores de alguém que sofreu uma perda e agora lida com essa assombração em sua vida. Há desde a introspecção (Always in my Head) à euforia (Sky Full of Stars), passando pela melancolia (Oceans), a alegria leve (Ink) e até o silêncio (Midnight). No geral, são músicas de uma qualidade vista desde sempre no trabalho do quarteto – composições ricas, ainda que muito acessíveis sempre. Só que, não se engane, não se trata de um “mais do mesmo”.

Fala-se muito de uma volta às raízes de Parachutes, o que não é uma ideia a ser descartada, porém não é tão simplista assim. Coldplay é uma banda inquieta e que não repete a rigor a última rota que percorreu. Depois do escandaloso Mylo Xyloto, não era difícil imaginar que um próximo disco carregaria outras cores. E as músicas são, no geral, de proporções menores, lembrando sim seu primeiro álbum e alguns casos pontuais ao logo da carreira.

Revirar o túmulo de suas composições mais antigas traz à tona os fantasmas de um grupo engessado pela fama e pela cobrança dos chefões das grandes corporações que rondam a marca Coldplay. Existe aqui aquela sensação presente desde X&Y (2005), aquele esforço muito grande para agradar, algo que a banda sabe fazer melhor do que a grande maioria (ouça a balada ao piano O, por exemplo, não tem como não gostar). Fica a impressão também que fazer algo “conceitual” (o que, sinceramente, vem sendo dito a cada um de seus lançamentos desde Viva la Vida or Death and All His Friends, de 2008) é uma alternativa para se manter criativamente interessante, mesmo com as correntes das obrigações a serem cumpridas.

É bonito como o disco emenda um repeat legal e como as músicas, por mais variadas que sejam, parecem brotar naturalmente em seu devido lugar, mas um detalhe ou outro incomoda aqui e ali, como a guitarra que chega de surpresa em True Love, como algo inserido só pra faixa (grande candidata a hit) não ficar redondinha demais. É a vontade de criar algo menos convencional andando de mãos dadas com o esforço para a aprovação geral.

Quem gostou de Magic e veio para Ghost Stories esperando mais um bom trabalho de Coldplay não terá do que reclamar. mas ainda não chegou a hora da banda se exorcizar por completo e fica a sensação de que alguns fantasmas nunca desaparecerão – acontece na arte, acontece na vida. O jeito é seguir o conselho da faixa final de Parachutes: “When I counted up my demons/Saw there was one for every day/With the good ones on my shoulder/I drove the other ones away”.

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BOM PARA QUEM OUVE: The xx, Young the Giant, Damon Albarn
ARTISTA: Coldplay
MARCADORES: Indie, Indie Pop, Pop Rock

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.