Resenhas

Colin Stetson – All This I Do For Glory

Saxofonista lança álbum ambicioso

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Ano: 2017
Selo: 52 Hz
# Faixas: 6
Estilos: Experimental, Jazz
Duração: 35:52
Nota: 3.0
Produção: Colin Stetson

O mais novo trabalho de Colin Stetson, All This I Do For Glory desafia o ouvinte. Em primeiro lugar, é pouco provável que as sonoridades e texturas que saem das caixas de som existam livres de qualquer manipulação em estúdio, a saber, gravações sobrepostas (overdubs) e repetição de estruturas melódicas insistentemente (loops). Também é quase impossível aceitar que os sons sejam provenientes de instrumentos de sopro, área de domínio musical de Stetson. Os ouvidos mentem, no entanto. O músico já deu várias entrevistas dizendo que procurou limar das gravações toda e qualquer interferência artificial, além de ter gravado tudo ao vivo no estúdio. Sendo assim, só temos que admirar o resultado.

Admirar, no entanto, não significa gostar logo de cara, mesmo porque, Colin Stetson propõe um painel caótico sobre mitos gregos, uso inteligente de saxofones e derivados, expansão de fronteiras da própria música instrumental contemporânea, tudo misturado e resumido em seis faixas que exibem pouco apreço por estruturas melódicas típicas do Pop. A coisa está mais para as fronteiras do experimental do que para qualquer outro terreno. Além disso, Stetson faz um curioso uso de percussão, o que concede às canções uma estranha caracterísitica não-dançante, mas que suscita o movimento de forma não ordenada, algo que, certamente, não é casual.

Uma faixa se destaca em meio ao caos intencional: Spindrift, lançada como “single”, é uma baita duma canção. O arranjo que Stetson obtem, com saxofones fazendo quase uma cama percussiva e teclados ao longe, soa como algo que dá ao ouvinte a impressão de ter sido composto há muito tempo atrás, antes talvez da própria civilização. Destacar esta em meio às outras é porque há características que permitem sua audição de forma descontextualizada, ou melhor, ela não perde muito se ouvida fora do âmbito do disco. As outras, devidamente encadeadas, formam este painel caótico e inato, que pode parecer distante no tempo ou perto na brutalidade estranha do cotidiano.

Colin Stetson, além de colaborar com bandas queridas como Arcade Fire e Bon Iver, cultiva este lado curioso e inquisidor de músico solo. Suas criações são sempre instigantes e exigem um tempo de digestão por parte do ouvinte que a música popular usual não demanda. Se você está a fim de uma jornada por caminhos realmente alternativos, capazes de te levar a universos diferentes, distantes e reveladores, a audição deste novo álbum do homem é altamente recomendada. Não é fácil, mas a recompensa é boa e certa.

(All This I Do For Glory em uma música: Spindrift)

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BOM PARA QUEM OUVE: Miles Davis, Mogwai, Arcade Fire
ARTISTA: Colin Stetson
MARCADORES: Experimental, Jazz

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.