Resenhas

Constantina – Pelicano

Disco chama atenção por apresentar um Post-Rock coeso e bem produzido

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Ano: 2014
Selo: La Petit Chambre/Dry Cry Records
# Faixas: 4
Estilos: Instrumental, Post Rock
Duração: 47:35
Nota: 4.0
Produção: Constantina

Os mineiros da banda Constantina já estão a ponto de celebrar seu décimo-primeiro aniversário, algo bastante raro para uma banda independente de Rock no Brasil de hoje em dia. Como o próprio encarte de Pelicano apregoa, o grupo, assim como a vida e as pessoas, é uma “banda em trânsito”, mutável, mudando, existindo numa espécie de corda bamba existencial, típica dos nossos dias. Talvez para confirmar essa condição e aproveitar uma simpática oportunidade para revisitar um passado recente, Constantina escolheu quatro canções gravadas em 2007 para povoar este novo lançamento. Não se engane, Pelicano está longe de ser um EP, uma vez que abriga mais de 47 minutos de música. Boa música.

A praia da banda é o Rock instrumental que muitos gostam de chamar apenas de Post Rock, aquela variante que também é conhecida por Noise ou Drone, música com guitarra em repetição de acordes com precisão matemática, secundada por baixo, outras guitarras e bateria (às vezes teclado) formando uma cama melódica que acaba causando um efeito de unidade. Em 2007, a banda contava com apenas dois discos em sua carreira, Constantina (2005) e Jaburu (2006). Entre eles e Haveno (2011, significando “porto” em esperanto) a banda inspirou-se em imagens oceânicas e litorâneas para dar nome às suas canções. Talvez Escafandro, Puerto Vallarta, Pelicano e Salva-Vidas, as canções do novo disco, sejam as precursoras dessa carga visual na sonoridade da banda.

O clima das canções é contemplativo, muito mais para plácido e calmo do que para explosões de guitarras e intervalos entre silêncio e esporro. A faixa-título, que dá partida no disco, é um pequeno primor de paisagens desérticas à beira mar, uma praia cinzenta, que vai recebendo gente aos poucos e a música vai acompanhando as alterações na paisagem à medida que vai avançando por seus quase 18 minutos de duração. Escafandro, a canção que vem em seguida, tem introdução mais próxima do que poderíamos chamar de Rock, mas várias sutilezas vão sendo acrescentadas à sua evolução, sobretudo as percussões de André Veloso, marcantes mesmo em meio ao oceano de guitarras. A mais bela canção, Puerto Vallarta, batizada com nome de balneário mexicano é pura construção de climas, com intervenções de teclados e andamento subvertido na altura do sexto minuto, mas não muito, talvez o suficiente para só percebermos com muita atenção. Salva-Vidas, a última canção, é mais silêncio que som, sutil, como se a música fosse assumindo a própria paisagem aos poucos, sutilmente, como se sempre estivesse ali.

Constantina está partindo em turnê pela Europa e vai levar seu som anti-praia para além-mar, como se fosse a própria lógica das correntes marítimas e demais caminhos quentes dentro do mar. Pelicano está disponível para download gratuito no site da banda, www.constantina.art.br.

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BOM PARA QUEM OUVE: Hurtmold, ruído/mm, Mogwai
ARTISTA: Constantina
MARCADORES: Instrumental, Post-Rock

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.