Contando Bicicletas – Se Quer Aventuras

Estreia da banda tenta dar conta de grandes intensidades em música e letra

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Ano: 2018
# Faixas: 10
Estilos: Pós-MPB, Rock Alternativo
Duração: 46'
Nota: 3.5
Produção: Hugo Noguchi e Pedro Tambellini

Se somos aquilo que comunicamos ser, a carioca Contando Bicicletas cultiva sua identidade como uma banda disposta a dialogar uma estética muito referencial da produção brasileira autoral de décadas atrás com climas bastante contemporâneos, todos vindos de vertentes da música Alternativa de hoje. Ouvir seu primeiro álbum, Se Quer Aventuras, é como passear pelo perfil de alguém em uma rede social: Cada timbre, harmonia e quebra de ritmo diz muito sobre a personalidade do quarteto construída a partir do lançamento – e não necessariamente o contrário.

Essa impressão vem da sensação de que, em diversos momentos, há “música demais” dentro de suas dez faixas. Isso porque há uma aparente ansiedade não só em colocar esse trabalho no mundo, mas em firmar-se como fazedora de todo esse volume (nos dois sentidos, o da intensidade sonora e na dimensão em que sua música chega) trabalhado a cada faixa. O problema é justamente quando, no mesmo bombardeio de informação com que se percorre um feed na Web, parte de sua mensagem acaba sendo perdida.

Não é arriscado afirmar que a composição de suas letras é algo que Contando Bicicletas tinha como uma das prioridades para Se Quer Aventuras – ter verbos tanto no nome do grupo quanto no do disco já carrega uma certa característica “literária”. A atenção do ouvinte, contudo, se torna cada vez mais rarefeita em meio a tantos elementos cruzados e mudanças bruscas nas faixas, o que gera dificuldade em entrar na esfera introspectiva que o trabalho se propõe a ter.

Ao invés de uma apreciação maior dos significados, o que fica é o deslumbre causado pela imponência de canções que sabem atingir a grandiosidade proposta, e essa própria desatenção causada por um volume intenso é bastante familiar aos nossos dias. Da mesma forma, a proximidade que o ouvinte nascido e criado no Brasil tem das suas referências funciona como uma atração a esse universo sonoro, ainda que ele não seja apresentado de uma maneira mais Pop e agradável, como Dônica faz, por exemplo, ou com o potencial sentimento que Baleia trabalha.

O que fica da audição de Se Quer Aventuras, depois disso tudo, é a sensação de ter ouvido músicas “muito boas”, mas não necessariamente “legais” – o incômodo, proposital ou não, aparece várias vezes ao longo de seus 46 minutos. Tem também a ver com a aparência de um álbum moldado com muito cuidado para impressionar, uma intencionalidade que, em muitos momentos, foge do caráter mais “humano” que as letras querem comunicar. O valor de Contando Bicicletas, no âmbito da qualidade executiva do seu trabalho, fica bastante claro. Só que fica também a suspeita de que a banda será “mais” quando for um pouco “menos”.

(Se Quer Aventuras em uma música: Atrito)

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BOM PARA QUEM OUVE: Dônica, SLVDR, Baleia

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.