Resenhas

Coriky – Coriky

Estreia de trio liderado por Ian MacKaye traz influências de projetos anteriores, e, aliando energia e sofisticação, prova que o Punk não está inerte

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Ano: 2020
Selo: Dischord
# Faixas: 11
Estilos: Punk
Duração: 37’
Produção: Don Zientara

Nem preciso citar a tragédia sistêmica que marca o ano de 2020, feita de problemas acumulados uns sobre os outros, para que você, leitor, saiba do que estou falando. No entanto, é com ela em mente que precisamos olhar para Coriky, novo projeto encabeçado por Ian MacKaye.

Como contrapartida para essa situação explosiva da atualidade, ao menos na música, os descendentes do movimento Punk ganharam uma nova carga de energia para trabalhar. A relevância de nomes como Idles ou Shame nos últimos anos, para citar apenas uma dupla de exemplos, prova como o estilo ganhou um novo fôlego. Assim, não é por acaso que figuras como MacKaye sintam a necessidade de formular um novo projeto.

MacKaye foi uma figura basilar para a estética Punk a partir dos anos 1980. Sua postura de trabalho e sua ética funcionaram como referência para muitos outros artistas ao seu redor. Foi com a banda Minor Threat que ele fomentou o movimento Straight Edge argumentando que, para mudar o mundo, uma cabeça ligada talvez fosse uma arma mais poderosa do que uma entorpecida. Depois de alguns anos, com a Fugazi ajudou a desenvolver um tipo de Punk menos explosivo, que reverbera até hoje – um exemplo de como fazer arte que não seja mera mercadoria.

Coriky é uma banda formada por MacKaye (guitarra), Joe Lally (baixo) e Amy Farina (bateria). Todos eles dividem os vocais. Lally também integrou a Fugazi, enquanto Farina e MacKaey – que são casados – também tocam em uma outra banda chamada the Evens.

É natural, portanto, que a música de Coriky beba desses projetos anteriores. O clima, no entanto, é um pouco mais sombrio do que o de costume. O ritmo não é acelerado e os arranjos, feitos com três instrumentos, são dinâmicos e provam como é possível ser sofisticado com poucos recursos. O projeto denota uma espécie de maturidade, mas, ao mesmo tempo, de desgosto: ao cantar, o trio dá a entender que já viu coisas demais.

Embora tenha sido elaborado antes do surto pandêmico, algumas faixas ganham um novo significado no contexto atual. A faixa “Clean Kill”, por exemplo, critica a violência do Estado. Todavia, ao ouvirmos o refrão “água e sabão nunca é o suficiente!”, a associação com a ansiedade em relação ao coronavírus se torna inevitável. Sintomaticamente, o álbum revela um tipo de desespero maior e mais complexo que repercute em nós.

Nesse sentido, é um alívio constatar que esse trio esteja com energia de fazer nova música. Não apenas para aqueles que aprenderam a ouvir e fazer música com o que o Punk promoveu, mas também porque isso prova que a arte não está inerte durante um tempo em que ela se reforça como um patrimônio essencial da humanidade.

(Coriky em uma faixa: “Clean Kill”)

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ARTISTA: Coriky

Autor:

Discreto e silencioso. Falo pouco, ouço bem, porém.