Resenhas

Criolo – Convoque Seu Buda

Músico mostra evolução e continua como um dos maiores representantes da música brasileira atual

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Ano: 2014
Selo: Oloko Records
# Faixas: 10
Estilos: Rap, MPB, Hip Hop
Duração: 40:22
Nota: 4.5
Produção: Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral
SoundCloud: /tracks/175353613

Existem artistas prontos quem tentam se manter no topo, existem os que estão em desenvolvimento e há também Criolo, um músico pronto, mas que mostra em Convoque Seu Buda que isto não é motivo para não continuar em evolução.

Desde Nó Na Orelha (2011), muita coisa mudou em Kleber Cavalcante, mas principalmente em seu público. Com o sucesso do disco, muitas fronteiras se expandiram, seja a que dividia o Rap e outros estilos brasileiros, a que segregava a periferia dos centros ou a que separava os fãs de Hip-Hop, os de música alternativa e todo e qualquer tipo de ouvinte. Hoje, é impossível limitar Criolo ao título de rapper, ao mesmo tempo que é uma injustiça com o próprio estilo não admitir o quanto alguém dentro dele pode captar esta variedade de influências e continuar fazendo Rap.

É com esse respeito à música que ele conseguiu alcançar o patamar em que está hoje e principalmente, construir a relevância que tem no país. Diferente do que demonstrou (pelo menos para boa parte dos receptores) durante a viralizada entrevista com Lázaro Ramos, Criolo, através de sua música, sabe se comunicar como poucos, pois consegue botar o dedo na ferida de quem teoricamente precisa abrir mais os olhos, sem deixar de falar com quem se identifica diretamente com aquelas questões.

Não cabe a ninguém apontar o objetivo do Rap, mas é fato que os nomes do estilo que conseguiram se sobressair são os que se desvencilharam da sina de “pregar aos convertidos”, ou seja, alertar problemas políticos e sociais apenas para quem já sofre com eles e já os conhece. É claro que isso também tem sua grande importância, a identificação deste público com o estilo como forma de encorajamento para mudar de vida não se questiona. No entanto, os artistas que conseguem atingir estes e também os que estão longe desta realidade, ganham um impacto, se não maior e mais profundo, pelo menos diferente.

Acredito que Criolo seja, nos últimos anos, quem mais conseguiu romper esta fronteira invisível. Sim, outros conseguiram antes dele, mas a maneira com que Criolo fez isso musicalmente é diferente. Incorporar elementos brasileiros ao Rap não é de hoje, mas misturar as duas coisas a chegar num ponto em que é impossível – e provavelmente desnecessário – distingui-las, poucos conseguiram como ele, e se atingiram este ponto, não foi de maneira tão consistente, abrangente e acessível.

Em Convoque Seu Buda, é possível agrupar músicas separadamente e provar diversos pontos. Esquiva da Esgrima e Pegue Pra Ela demonstram o básico, o quanto Criolo, junto de Marcelo Cabral e Daniel Ganjaman e também com seus músicos, conseguiu uma fluidez de melodia difícil de ser atingida. Diante de outras faixas mais agressivas e que chamam mais atenção, após dezenas de audições do disco foram estas, mais contidas, mas bem redondinhas, que mais ficaram na cabeça, brigando pelo título de favoritas.

Casa de Papelão e Fio de Prumo (Padê Onã) são as maiores responsáveis pela percepção que fica após o disco de um Criolo que tem experimentado mais. Elas aproximam o músico de um grupo seleto que tem levado a música Brasileira a um novo nível, comprovado pela participação de Juçara Marçal na segunda. As estruturas menos convencionais e a inserção de elementos mais caóticos fazem destas as canções mais interessantes do álbum e que apontam esta constante evolução do músico. Deixar Fio de Prumo para o final, é inclusive uma estratégia para que ao fim de cada audição fiquemos com uma curiosidade enorme para o que pode vir nos próximos trabalhos.

A faixa-título e Cartão de Visita, com participação de Tulipa Ruiz, são boas sínteses do trabalho do paulistano. Prováveis singles do disco, são as que possuem as melodias mais acessíveis, empolgantes e provavelmente é o tipo de música que muitos procuravam ao dar o primeiro play no novo disco. As letras mais ácidas, tratando de problemas sérios com indiretas engraçadas na primeira audição, mas constrangedoras de tão verdadeiras em seguida, estão envoltas por melodias nada minimalistas, carregadas de elementos provavelmente inseridos de maneira certeira por Ganjaman. É o toque de Midas de um dos produtores mais interessantes da música brasileira atualmente.

Por último, enquanto Plano de Voo, com participação de Síntese, e Duas De Cinco mantém os pés de Criolo bem estáveis dentro do Rap, Fermento Pra Massa e Pé de Breque são incríveis pra tirá-los de lá. Ambas impressionam no respeito com que tratam, respectivamente, o Samba e o Reggae, sem parecer em nenhum momento um artista de fora emulando um estilo que admira.

Seu som pode não agradar a uns e a outros. Para um fã mais casual de MPB, por exemplo, pode parecer rapper demais e para um fã de seu estilo de origem, rapper de menos. Mas é um dos poucos artistas atualmente que conseguem misturar quase tudo que tanto se pede na música brasileira. Raízes nacionais, mas também influências variadas, inovação com respeito ao tradicional, letras inteligentes envoltas por boas melodias e tudo isso causando tanto um impacto mais individual nos ouvintes quanto com total possibilidade de ter uma influência mais abrangente. Se mesmo assim, alguém ainda tiver dificuldades de curtir seu som, “Lázaro, alguém nos ajude a entender”.

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BOM PARA QUEM OUVE: Submarinos, Nação Zumbi, Emicida
ARTISTA: Criolo
MARCADORES: Hip Hop, MPB, Ouça, Rap

Autor:

Nerd de música e fundador do Monkeybuzz.